Amazonas libera extração de material para recuperar trecho crítico da BR-319
Licença emitida pelo Ipaam permite extração de materiais em Canutama para recuperar o trecho mais crítico da rodovia que liga Manaus a Porto Velho.

O Governo do Amazonas liberou a extração de materiais para obras urgentes no 'trecho do meio' da BR-319. A medida visa combater atoleiros e garantir a trafegabilidade na única ligação terrestre entre Manaus e Porto Velho, sob rígidas normas de monitoramento ambiental.
O Governo do Estado do Amazonas oficializou, nesta quarta-feira (27), a emissão de uma Licença de Operação (LO) estratégica que pode representar um avanço significativo para a logística da Região Norte. Por meio do Instituto de Proteção Ambiental do Amazonas (Ipaam), foi autorizada a extração de minerais essenciais pela Construtora Etam, destinados exclusivamente às obras de manutenção e recuperação da BR-319. O foco central desta autorização é o chamado "trecho do meio", compreendido entre os quilômetros 469 e 632, uma extensão historicamente castigada pelo abandono e pelas condições climáticas extremas da floresta tropical.
A BR-319, que conecta Manaus (AM) a Porto Velho (RO), é envolta em décadas de controvérsias e desafios técnicos. Inaugurada na década de 1970 e posteriormente abandonada, a rodovia tornou-se um símbolo do isolamento terrestre da capital amazonense. O "trecho do meio" é a área mais sensível desse corredor, onde a ausência de pavimentação adequada transforma a via em um lamaçal intransitável durante o período de chuvas e em uma nuvem de poeira sufocante na seca. A falta de manutenção recorrente não apenas isola comunidades ribeirinhas e municípios do interior, mas também eleva drasticamente o custo do transporte de insumos básicos, alimentos e medicamentos, impactando diretamente o bolso e a qualidade de vida do consumidor amazonense.
A licença agora concedida permite a retirada de materiais como saibro e laterita — substâncias que possuem propriedades similares à piçarra e ao cascalho, sendo fundamentais para dar sustentação e firmeza à base do solo. A extração ocorrerá em uma jazida localizada no município de Canutama, no sul do estado. Tecnicamente, esses materiais são indispensáveis para aumentar a capacidade de drenagem e a resistência da pista em áreas sujeitas a erosão e formação de atoleiros. Segundo o Ipaam, a medida visa garantir que a empresa responsável tenha o suporte material necessário para acelerar as intervenções antes que o rigor do inverno amazônico impossibilite novamente o tráfego de veículos pesados e de passeio.
Apesar do caráter emergencial e prático da obra, o licenciamento ambiental impõe uma série de condicionantes rígidas para mitigar os impactos na biodiversidade local. A Construtora Etam deverá seguir protocolos rigorosos de monitoramento de fauna e flora, além de garantir a correta gestão de resíduos sólidos. Há também uma cláusula de proteção ao patrimônio histórico: caso vestígios arqueológicos sejam detectados durante a escavação, os trabalhos devem ser paralisados imediatamente. A manutenção dos ramais de acesso e o envio de relatórios técnicos semestrais com registros fotográficos ao órgão ambiental são obrigações que tentam equilibrar a necessidade urgente de infraestrutura com a preservação de um dos ecossistemas mais sensíveis do planeta.
A médio e longo prazo, a viabilização da BR-319 permanece como um dos temas mais quentes da agenda política nacional e regional. Recentemente, o governo federal sinalizou que a reconstrução definitiva da rodovia será tratada com o "maior cuidado ambiental" possível, reconhecendo que a estrada atravessa unidades de conservação e terras indígenas. Para o leitor brasileiro, especialmente o que reside fora da Região Norte, é importante compreender que a BR-319 não é apenas uma estrada, mas a única ligação terrestre que pode integrar efetivamente o Amazonas ao restante do sistema rodoviário nacional. O sucesso dessas obras de manutenção, agora reforçadas pela licença de extração, é um teste para a capacidade do Poder Público em entregar conectividade sem comprometer as metas de sustentabilidade ambiental.





