O peso do “Ninguém veio”
Fica o sentimento incompleto de quem passa pela vida e sente a vida passar por si, sempre repetindo: ninguém veio.


Antonio Marcos de Souza
O peso dessas duas palavras é enorme. “Ninguém veio.” É difícil explicar o sentimento que elas trazem. Para alguns, pode ser desapontamento. Para outros, tristeza, humilhação ou simplesmente um vazio que ressoa por dentro.
Eu vi um vídeo nas redes sociais: a formatura de um jovem nas forças armadas. Todos os colegas estavam com seus familiares. Quando perguntaram a ele sobre os pais, a resposta foi desoladora: “ninguém veio". Foi de partir o coração.
Não importa o que você conquiste, não importa o que você faça.
O ser humano precisa sentir que alguém se importa, que alguém está lá por ele, que existe quem o acompanhe mesmo nas ausências inevitáveis da vida.
Imagine convidar seus amigos para celebrar um momento de alegria e perceber que ninguém apareceu. No mínimo, você descobriria que aqueles que você chamava de amigos não eram de fato. Mas há também o outro lado: estar cercado de pessoas e, ainda assim, sentir o “ninguém veio". Porque os que mais importam para você não estão ali. Você os convidou, esperou por eles, mas eles não foram.
Já passei por isso muitas vezes. Não por falta de vontade, mas por não ter forças sequer para sair da cama. Poucos sabiam da minha condição, e esses poucos ainda entendem até hoje. Mas não é sobre mim que estou falando. É sobre essa experiência universal: estar rodeado de gente e, mesmo assim, sentir-se só. Porque quem completa sua vida não está presente.
Você pode realizar grandes feitos ou pequenos gestos de enorme significado pessoal, mas se as pessoas que mais importam não estão lá, o vazio se instala. Seja numa formatura, num encontro de amigos ou numa reunião para relembrar bons momentos, o “ninguém veio” pode estar presente, mesmo quando há muitos ao redor.
Quantos de nós seguimos sozinhos, forçados pelo tempo ou pelo imprevisto? Quantos cresceram sem os pilares da família, sem pai ou mãe? Quantos tiveram esses pilares, mas como se não existissem, por não cumprirem o papel de pais? É doloroso pensar nisso. Quantos atravessam a vida sem sequer conhecer seus pais?
Eu fui um deles. Uma parte da minha família é desconhecida. Talvez nunca conheça meus tios, primos ou irmãos paternos. Aos 47 anos, carrego essa ausência, e para mim também ecoa o “ninguém veio".
Fica o sentimento incompleto de quem passa pela vida e sente a vida passar por si, sempre repetindo: ninguém veio.
Antonio Marcos de Souza
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