Difícil se acostumar com o "quase" na vida.
E talvez seja justamente nos "quases" que encontramos a força para chegar, um dia, ao "consegui".


Difícil se acostumar com o "quase" na vida. Dependendo de como nos referimos no dia a dia, esse quase pode passar a ideia de perda, de derrota e às vezes o sentimento é esse mesmo. Se foi numa prova importante para entrar numa faculdade, por causa de um ponto, "quase" passei. Se foi numa entrevista de emprego, depois de tantas etapas, "quase" consegui a vaga. Se foi numa relação, depois de tantas tentativas, "quase" deu certo. O "quase" parece sempre nos lembrar daquilo que não foi, daquilo que escapou por pouco, e isso pode ser doloroso.
Lembro que, em 2008, resolvi tirar a habilitação para carro e moto e até entrei em um consórcio. Fiz todas as aulas, simulados e teoria numa boa, e quando me senti preparado, fui fazer a prova teórica no Shopping Miramar, em Maceió. Era à tarde, saí da escola, peguei o ônibus e depois um táxi dentro da capital, no trânsito de pico, super atrasado e quase não cheguei a tempo. Ao terminar a prova, a moça do balcão, numa sala minúscula, falou alto: “Sr. Antonio, o senhor ficou por um ponto. Pode refazer daqui a trinta dias.” Envergonhado, saí prometendo a mim mesmo que nunca mais tentaria. Por causa desse quase, até hoje não dirijo, mas não sinto falta. Dezoito anos se passaram e nunca voltei atrás; coloquei no meu coração que isso não era pra mim e ainda penso assim.
Mas o "quase" também carrega uma força silenciosa. Ele mostra que estivemos perto, que chegamos até ali, que tivemos coragem de tentar. O "quase" é a prova de que nos movimentamos, de que não ficamos parados. Ele pode ser visto como um sinal de que estamos no caminho, mesmo que ainda não tenhamos alcançado o destino. É como uma ponte que não se completou, mas que nos levou até a margem mais próxima. O "quase" nos ensina sobre persistência, sobre a importância de continuar mesmo quando o resultado não é exatamente o que esperávamos.
Na vida, o "quase" pode ser um convite à reflexão: será que precisamos ajustar a rota, mudar a estratégia, ou simplesmente insistir mais um pouco? Às vezes, o "quase" é apenas um lembrete de que o tempo ainda não era o certo. Outras vezes, é um alerta para que olhemos para dentro e percebamos o que precisa ser transformado em nós. Ele pode ser doloroso, sim, mas também pode ser fértil. Porque é no espaço entre o que quase foi e o que ainda pode ser que nascem novas possibilidades.
O "quase" não precisa ser encarado como fracasso definitivo. Ele pode ser visto como um ensaio, uma preparação, um degrau. Afinal, quem nunca "quase" desistiu, mas escolheu continuar? Quem nunca "quase" perdeu, mas encontrou forças para recomeçar? O "quase" nos humaniza, nos lembra que não somos perfeitos, que a vida não é uma linha reta. Ele nos ensina a valorizar o processo, não apenas o resultado.
Talvez o segredo esteja em transformar o "quase" em combustível. Em vez de nos prender ao que faltou, podemos nos abrir ao que ainda pode vir. O "quase" pode ser o sopro que nos impulsiona a tentar de novo, a acreditar mais uma vez, a não desistir de nós mesmos. Porque, no fim, a vida é feita de tentativas, de caminhos que se abrem e se fecham, de sonhos que se aproximam e se afastam. E cada "quase" é uma prova de que estamos vivos, de que seguimos buscando, de que ainda acreditamos que vale a pena tentar.
O "quase" dói, mas também ensina. Ele nos mostra que a vida não é sobre acertar sempre, mas sobre ter coragem de continuar mesmo quando não dá certo. E talvez seja justamente nos "quases" que encontramos a força para chegar, um dia, ao "consegui".
Antonio Marcos de Souza
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