Economia

O embate entre a Inteligência Artificial e o futuro do jornalismo profissional

A.G. Sulzberger, editor do 'The New York Times', denuncia o uso predatório de conteúdos por gigantes da tecnologia e alerta para o risco de 'desertos de notícias' no mundo.

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Redação 360 Notícia
2 de junho de 2026 às 17:003 min
O embate entre a Inteligência Artificial e o futuro do jornalismo profissional
Foto: Reprodução
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O editor do New York Times alerta que o uso não autorizado de notícias para treinar inteligências artificiais ameaça a sustentabilidade do jornalismo original e a saúde da democracia. Sulzberger denuncia um modelo de 'parasitismo' tecnológico que desvia público e receita das redações.

O avanço desenfreado da inteligência artificial (IA) generativa colocou o jornalismo profissional diante de um desafio existencial sem precedentes. Recentemente, A.G. Sulzberger, editor do The New York Times, trouxe a público um alerta contundente sobre as práticas das grandes empresas de tecnologia, que estariam operando o que ele classifica como um "roubo descarado de propriedade intelectual". Segundo o executivo, o uso de conteúdos jornalísticos para treinar modelos como o ChatGPT e o Gemini, sem a devida compensação ou autorização, não apenas fere direitos autorais, mas ameaça secar a fonte de informações confiáveis que sustenta as democracias modernas.

O cenário descrito por Sulzberger reflete uma transformação drástica na "web aberta". Se antes existia um pacto simbiótico no qual plataformas de busca enviavam tráfego para sites de notícias em troca de conteúdo, a era da IA rompeu essa lógica. Agora, os chatbots oferecem respostas diretas ao usuário, desencorajando o clique no link original. Dados indicam que mecanismos de busca baseados em IA entregam um volume de tráfego até 96% menor para os veículos de mídia. Esse processo de "parasitismo" tecnológico desvia a receita publicitária e de assinaturas, essenciais para manter repórteres em campo, cobrindo desde câmaras municipais até conflitos internacionais.

A gravidade da situação se estende para além das redações, atingindo todo o ecossistema cultural e econômico. Estima-se que as indústrias criativas gerem cerca de US$ 12 trilhões ao ano globalmente e empreguem mais de 50 milhões de pessoas. No entanto, as seis maiores empresas de IA do mundo, que juntas valem aproximadamente US$ 11 trilhões, destinam menos de 0,5% de seus investimentos para compensar os provedores de dados. Para Sulzberger, argumentos de que o pagamento inviabilizaria a inovação ou a segurança nacional contra a China não se sustentam, dado o volume bilionário de capital que essas mesmas empresas investem em infraestrutura e chips da Nvidia.

Para o leitor brasileiro e global, as implicações são severas: o enfraquecimento do jornalismo investigativo e local abre espaço para a proliferação de "desertos de notícias", onde a desinformação e os deepfakes florescem sem contraponto. A IA, embora capaz de processar dados em larga escala, frequentemente apresenta erros com "excesso de confiança" e carece da capacidade de testemunho ocular e julgamento ético humano. Quando uma notícia é fabricada por um bot ou quando um veículo tradicional fecha as portas por falta de sustentabilidade financeira, a sociedade perde a ferramenta de fiscalização do poder público e de mediação de fatos comuns.

O futuro desse embate dependerá de ações coordenadas em múltiplas frentes. Sulzberger defende que as organizações de notícias precisam ser mais assertivas na defesa de seus direitos autorais, negociar acordos de licenciamento que reflitam o valor real do conteúdo e pressionar legisladores por transparência no uso de dados por bots. Além disso, as redações devem abraçar a IA de forma ética para melhorar processos internos, mantendo o foco no jornalismo original como diferencial competitivo. O próximo passo crucial será a definição de marcos regulatórios que impeçam a IA de se tornar uma réplica que assassina seu próprio criador, garantindo que a informação, que é valiosa e cara de ser produzida, continue a ser financiada e protegida.

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