Economia

Tarifas dos EUA contra Brasil podem gerar impacto imediato no mercado exportador

Comércio Exterior: Especialistas alertam para paralisação de exportações e possível resposta brasileira via Lei de Reciprocidade diante de ameaças de Washington.

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Redação 360 Notícia
2 de junho de 2026 às 17:003 min
Tarifas dos EUA contra Brasil podem gerar impacto imediato no mercado exportador
Foto: Reprodução
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A ameaça de novas tarifas de 25% dos EUA contra produtos brasileiros gera alerta imediato no mercado. Especialistas apontam que a incerteza pode paralisar exportações antes mesmo de decisão oficial, enquanto o Brasil avalia usar a Lei de Reciprocidade como resposta contra empresas americanas.

A recente divulgação de um relatório pelo Escritório do Representante de Comércio dos Estados Unidos (USTR) colocou o setor exportador brasileiro em estado de alerta máximo. O documento recomenda a implementação de uma tarifa retaliatória adicional de 25% sobre uma série de produtos brasileiros, fundamentada na Seção 301 da Lei de Comércio de 1974. Embora a medida ainda careça de uma decisão definitiva e precise passar por um período formal de consultas públicas e negociações diplomáticas, especialistas advertem que o impacto psicológico e operacional sobre o mercado pode ser imediato. O receio é que a incerteza tarifária paralise fluxos comerciais antes mesmo de qualquer canetada oficial em Washington.

De acordo com Welber Barral, ex-secretário de Comércio Exterior do Brasil e atual sócio da consultoria BMJ, a mera possibilidade de sobretaxação já altera o comportamento dos agentes econômicos. Para o especialista, muitos exportadores brasileiros tendem a restringir ou suspender seus embarques para evitar prejuízos catastróficos. Caso as mercadorias cheguem ao território norte-americano no momento em que a nova alíquota entre em vigor, os custos poderiam se tornar impeditivos. Em alguns cenários, a soma das tarifas existentes com o novo acréscimo poderia elevar a carga tributária para 35%, retirando completamente a competitividade dos bens brasileiros frente a concorrentes globais que não sofreram as mesmas sanções.

O pano de fundo dessa tensão comercial é uma investigação aberta pelos Estados Unidos em julho do ano passado, que classifica certas práticas brasileiras como "irrazoáveis" ou discriminatórias contra empresas americanas. Um dos pontos centrais de atrito, surpreendentemente, é o sistema de pagamentos Pix. O relatório do USTR alega que o Brasil estaria favorecendo o seu "campeão nacional" de pagamentos eletrônicos em detrimento de prestadores de serviços dos EUA. Além disso, o documento cita questões sensíveis como o desmatamento, o combate à corrupção e os acordos preferenciais que o Brasil mantém com nações como México e Índia. Barral critica a superficialidade das conclusões americanas, ressaltando que o desmatamento no Brasil apresentou queda significativa e que os acordos comerciais citados estão em total conformidade com as regras da Organização Mundial do Comércio (OMC).

Somando-se à pressão comercial, o cenário geopolítico também contribui para a instabilidade. Recentemente, os Estados Unidos classificaram facções criminosas brasileiras como organizações terroristas, uma decisão que coincidiu com as conclusões da investigação comercial. Para economistas como Guilherme Klein Martins, da Universidade de Leeds, essa convergência de fatores negativos amplia a percepção de risco. O resultado direto é a retração de investimentos estrangeiros diretos no curto prazo, uma vez que multinacionais preferem aguardar o desfecho das tensões diplomáticas antes de aportar novos capitais no país. A falta de consideração dos EUA sobre a importância do Brasil como fornecedor de insumos estratégicos para a própria indústria norte-americana é vista como uma falha grave na análise de impacto econômico do USTR.

Diante desse cenário de possível hostilidade tarifária, o Brasil já prepara seus mecanismos de defesa. Existe a possibilidade real de o governo brasileiro aplicar a recém-sancionada Lei de Reciprocidade. Caso não haja um avanço nas negociações nos próximos 30 dias, Brasília pode responder com tarifas equivalentes sobre exportações americanas, suspensão de direitos de propriedade intelectual ou até uma tributação específica sobre as grandes empresas de tecnologia (big techs) dos Estados Unidos. Esse dispositivo legal, aprovado pelo Congresso e sancionado pelo presidente Lula em 2025, visa justamente dar ao país poder de barganha para responder a medidas unilaterais e proteger os interesses nacionais em disputas de alto nível, configurando o que pode vir a ser uma guerra comercial direta entre as duas maiores economias das Américas.

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