Economia

João Pessoa: a explosão do custo de vida na capital da 'desaceleração'

Capital paraibana registra uma das maiores altas do metro quadrado no país e enfrenta desafios com o crescimento populacional acelerado.

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Redação 360 Notícia
25 de maio de 2026 às 22:003 min
João Pessoa: a explosão do custo de vida na capital da 'desaceleração'
Foto: Reprodução
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João Pessoa atrai jovens e investidores em busca de qualidade de vida, mas enfrenta explosão de preços e desafios urbanos. A capital paraibana já registra uma das maiores altas imobiliárias do país, impactando o trânsito e o saneamento básico.

João Pessoa, a capital da Paraíba, vive um momento de transformação profunda que redefine seu perfil socioeconômico. Conhecida historicamente por ser um refúgio de tranquilidade, com custo de vida acessível e praias pouco exploradas, a cidade agora enfrenta o reverso da medalha de seu próprio sucesso. Nos últimos anos, um fluxo migratório intenso, composto principalmente por jovens profissionais e investidores em busca de "desacelerar" a rotina, provocou uma escalada sem precedentes nos preços de serviços e, especialmente, no setor imobiliário. O fenômeno reflete uma mudança estrutural na dinâmica urbana, onde a busca por qualidade de vida acaba por pressionar a infraestrutura e o bolso dos moradores antigos e novos.

O cenário atual é evidenciado por dados demográficos e econômicos expressivos. De acordo com o Censo do IBGE, João Pessoa registrou uma taxa de crescimento de 1,19% ao ano, tornando-se a quinta capital brasileira que mais ganhou habitantes em pouco mais de uma década. Atualmente, a população ultrapassa os 833 mil indivíduos. Esse adensamento populacional não ocorreu de forma homogênea, concentrando-se fortemente na faixa litorânea e em bairros como Bessa e Cabo Branco. O resultado imediato desse movimento é sentido no cotidiano: trajetos que antes eram percorridos em poucos minutos agora podem levar mais de meia hora em horários de pico, refletindo uma frota de veículos que já supera a marca de 500 mil unidades circulando por vias que nem sempre foram projetadas para tamanha demanda.

No setor imobiliário, os números impressionam pela rapidez da valorização. O Índice FipeZAP aponta que o preço médio do metro quadrado na capital praticamente dobrou em um curto intervalo de tempo, saltando de R$ 4,5 mil em 2019 para cerca de R$ 8 mil na projeção atual. Em áreas nobres como o Cabo Branco, esse valor ultrapassa os R$ 12 mil. Essa alta, que colocou João Pessoa no topo do ranking nacional de valorização imobiliária, perdendo apenas para Salvador em termos percentuais, é impulsionada por um novo perfil de comprador: profissionais que trabalham em regime de home office com alto poder aquisitivo e investidores que veem os imóveis como ativos financeiros seguros. Esse movimento tem gerado o que especialistas chamam de gentrificação, onde residentes históricos são empurrados para periferias devido à impossibilidade de arcar com os custos de aluguel e manutenção em bairros centrais.

Além da moradia, a inflação local se manifesta em itens básicos de consumo. Relatos de moradores indicam que produtos simples, como a água de coco à beira-mar, triplicaram de preço em poucos anos, acompanhando a inflação de serviços e alimentos em supermercados e restaurantes. Para estudiosos do planejamento urbano, como pesquisadores da Universidade Federal da Paraíba (UFPB), o crescimento da cidade tem sido orientado prioritariamente pelos interesses do mercado imobiliário. Críticos apontam que o Plano Diretor municipal tem facilitado a expansão sobre áreas de interesse ambiental e social, enquanto a participação popular em decisões estratégicas diminuiu. O déficit habitacional, estimado em 50 mil domicílios, contrasta com o aumento de terrenos baldios mantidos por incorporadoras à espera de valorização futura, os chamados "bancos de terra".

Por fim, a rápida expansão urbana levanta alertas críticos sobre a sustentabilidade ambiental. A infraestrutura de saneamento básico, embora apresente números oficiais positivos, ainda deixa lacunas que resultam em descartes irregulares de esgoto em rios e galerias pluviais, ameaçando balneabilidade das praias e ecossistemas sensíveis como recifes de corais. O desafio para a administração pública nos próximos anos será equilibrar o fomento ao turismo e ao desenvolvimento econômico com a preservação da qualidade ambiental e a justiça social. Sem um planejamento que privilegie a mobilidade urbana eficiente e o acesso à moradia popular, João Pessoa corre o risco de perder justamente os atributos que a tornaram atraente: a fluidez, a beleza natural intacta e o custo de vida equilibrado.

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