Escândalo no RJ: Família acusa vice-prefeito de forjar casamento com idosa por herança
Político é suspeito de forjar união estável com ex-procuradora de mais de 80 anos para herdar benefícios que chegam a R$ 5 milhões.

Investigação aponta que vice-prefeito de Trajano de Moraes (RJ) teria forjado união estável com a tia de sua ex-mulher, uma ex-procuradora idosa, para herdar pensão milionária. Justiça bloqueou bens e suspendeu pagamentos sob suspeita de estelionato.
Um escândalo de proporções jurídicas e familiares abala a política de Trajano de Moraes, na Região Serrana do Rio de Janeiro. O atual vice-prefeito da cidade, Hélio Luiz Fazoli de Moraes, está no centro de uma investigação do Ministério Público do Rio de Janeiro (MPRJ) sob a acusação de ter forjado uma união estável com Ângela Marília de Moraes Pessanha, uma ex-procuradora do Estado que faleceu com mais de 80 anos. A denúncia aponta que o objetivo do político era garantir o recebimento de uma vultosa pensão deixada pela servidora aposentada, um benefício pago pelo RioPrevidência que, segundo estimativas das autoridades, teria gerado um prejuízo de quase R$ 5 milhões aos cofres públicos.
O caso ganhou repercussão nacional devido aos detalhes insólitos do suposto relacionamento. Ângela era tia da ex-mulher de Hélio, Adriana Pessanha, com quem o político foi casado por cerca de duas décadas. O divórcio de Adriana e Hélio ocorreu em 2013 e, apenas dez meses após a separação oficial, o político registrou em cartório a união estável com a idosa. Para os familiares de Ângela, a notícia caiu como uma bomba. Parentes próximos afirmam que nunca houve qualquer indício de envolvimento amoroso ou romântico entre os dois, classificando a situação como um "casamento fake" montado exclusivamente para a exploração do patrimônio da ex-procuradora.
Ângela Marília de Moraes Pessanha não era uma figura comum. Nascida em 1931, ela foi uma pioneira no direito fluminense, sendo uma das primeiras mulheres a compor o quadro da Procuradoria do Estado do Rio de Janeiro. Além da carreira jurídica, destacou-se como intelectual, atuando como jornalista, poeta e escritora. Aposentada desde meados da década de 1980 e sem herdeiros diretos (filhos), ela acumulou um patrimônio considerável ao longo dos anos. Segundo a investigação, Hélio também teria obtido uma procuração que lhe dava plenos poderes para movimentar as contas bancárias da idosa enquanto ela ainda era viva, o que levanta suspeitas sobre a gestão de seus recursos nos últimos anos de vida, quando ela se encontrava mais isolada do restante da família.
A estratégia para garantir a pensão encontrou obstáculos iniciais no INSS, que negou o pedido de Hélio. No entanto, o RioPrevidência inicialmente aprovou o benefício, o que permitiu o início dos pagamentos. Com o avanço das investigações e a suspeita de estelionato e falsidade ideológica, a Justiça determinou a suspensão imediata da pensão e o bloqueio de bens dos investigados, incluindo imóveis, veículos e aplicações financeiras. O Ministério Público sustenta que houve um conluio, inclusive com a participação da ex-esposa de Hélio, para que o dinheiro fosse desviado e usufruído pelo antigo casal, mantendo a aparência de uma separação que, na prática, beneficiava a ambos financeiramente através da fraude.
Este cenário traz à tona um debate relevante sobre a vulnerabilidade de idosos com alto poder aquisitivo e a facilidade com que escrituras de união estável podem ser lavradas em cartórios sem uma fiscalização rigorosa sobre a veracidade do afeto ou da convivência. Para o leitor brasileiro, o caso serve de alerta sobre crimes de "herança e previdência", que frequentemente envolvem figuras públicas ou familiares próximos que se aproveitam do isolamento de anciãos. No âmbito político, o desgaste para a prefeitura de Trajano de Moraes é evidente, uma vez que um de seus principais gestores agora responde criminalmente por práticas que ferem a moralidade administrativa e o Código Penal.
Atualmente, o processo segue na justiça criminal e cível. A defesa de Hélio Luiz e de Adriana Canes Peçanha nega veementemente qualquer irregularidade. Os advogados sustentam que a denúncia possui motivações políticas locais, visando desestabilizar a imagem do vice-prefeito em um período eleitoral ou de disputa de poder na Região Serrana. A defesa alega ainda que os familiares que prestaram depoimento contra a união não eram presentes na vida da ex-procuradora e que a inocência dos acusados será comprovada durante a instrução do processo, sob o argumento de que Hélio foi quem realmente prestou cuidados à idosa em seus momentos finais.






