Avião que operará o voo mais longo do mundo completa primeiro teste de voo na França
O modelo A350-1000ULR, projetado para voar 22 horas sem escalas, realizou seu primeiro teste oficial; voo ligará Sydney a Londres e Nova York.

A fabricante Airbus concluiu com sucesso o primeiro voo de teste do A350-1000ULR, aeronave capaz de voar por até 22 horas sem escalas. O modelo será o pilar do Projeto Sunrise, que conectará Sydney a Londres e Nova York, encurtando viagens em até quatro horas.
A engenharia aeronáutica global atingiu um novo marco histórico nesta semana com a realização do primeiro voo de teste do Airbus A350-1000ULR, a aeronave projetada para redefinir os limites das viagens aéreas comerciais. O modelo, identificado como MSN 707, decolou de Toulouse, na França, para uma jornada de avaliação que durou 3 horas e 43 minutos. Durante o trajeto, os engenheiros e pilotos de teste da fabricante europeia levaram o jato a uma altitude superior a 41 mil pés (cerca de 12.500 metros), testando sistemas cruciais que permitirão ao modelo permanecer no ar por até 22 horas consecutivas sem a necessidade de escalas para reabastecimento. Este avanço representa o passo mais sólido dado até hoje para a concretização do "Projeto Sunrise", da companhia australiana Qantas, que visa ligar Sydney diretamente a metrópoles como Londres e Nova York.
O conceito de voos de ultralongo alcance (ULR, na sigla em inglês) não é inteiramente novo, mas o A350-1000ULR traz inovações técnicas substanciais para possibilitar rotas que antes eram inviáveis ou financeiramente proibitivas. Atualmente, o recorde de voo comercial mais longo pertence à Singapore Airlines, em um trajeto de aproximadamente 15.350 quilômetros entre Singapura e Nova York, operado pelo modelo A350-900ULR. No entanto, o novo modelo da Airbus está sendo preparado para superar essa marca de forma significativa, alcançando distâncias de até 18.500 quilômetros. O diferencial tecnológico reside em uma nova arquitetura no sistema de combustível, que inclui um tanque adicional capaz de armazenar 20 mil litros de querosene a mais do que a versão padrão da aeronave, garantindo uma autonomia extra de 1.800 quilômetros.
As implicações logísticas para o passageiro são profundas. Ao eliminar a necessidade de conexões técnicas ou trocas de aeronave em polos tradicionais, como o Oriente Médio ou a Ásia, o tempo total de viagem entre a Austrália e o Hemisfério Norte poderá ser reduzido em até quatro horas. Durante este voo inaugural, a Airbus concentrou seus esforços em monitorar o comportamento estrutural do avião e o funcionamento dos novos sistemas térmicos e de refrigeração. Um dos desafios de passar quase um dia inteiro confinado a uma altitude elevada é a gestão de recursos internos; por isso, a fabricante introduziu uma cozinha de bordo otimizada (galley), sendo mais leve e eficiente, além de sistemas de ventilação aprimorados para garantir a qualidade do ar em períodos prolongados.
Para o mercado brasileiro e a indústria global, o Projeto Sunrise serve como um laboratório de experiência do usuário. Como ficar mais de 20 horas dentro de um avião pode ser fisicamente exaustivo, a configuração interna da aeronave foi radicalmente alterada pela Qantas. Diferente das versões convencionais que transportam cerca de 300 passageiros, o modelo ULR levará apenas 238 pessoas, priorizando o espaço individual. A estrutura contará com uma "zona de bem-estar", um espaço dedicado ao alongamento e hidratação fora das poltronas. Além disso, a divisão de classes será luxuosa: a primeira classe terá suítes privativas com camas fixas, enquanto as classes executiva e econômica premium receberam investimentos em ergonomia e iluminação circadiana, projetadas cientificamente por especialistas em sono para mitigar os efeitos severos do jet lag.
Apesar do sucesso do primeiro voo de teste, o cronograma para o início das operações comerciais sofreu ajustes. Originalmente previsto para 2025, o lançamento oficial do Projeto Sunrise foi postergado para abril de 2027 devido a desafios na cadeia de suprimentos e à necessidade de certificações rigorosas de segurança. Ao todo, a Qantas encomendou 12 unidades desta variante específica e outras 12 da versão padrão para rotas de longa distância menos extremas. Nos próximos dois meses, a aeronave passará por uma bateria intensiva de testes de voo para obter a certificação final. O sucesso deste projeto poderá abrir caminho para novas rotas globais diretas entre continentes até então isolados por grandes barreiras geográficas, aproximando o mundo de uma conectividade sem precedentes.





