Dor menstrual afasta 40% das alunas das escolas brasileiras mensalmente
Levantamento mostra que cólicas e falta de infraestrutura afastam alunas das salas de aula todos os meses no Brasil.

Pesquisa inédita revela que 40% das estudantes brasileiras faltam à escola mensalmente devido a dores e desconfortos menstruais. O estudo acende um alerta sobre o impacto do ciclo biológico no aprendizado e a urgência de políticas públicas voltadas à dignidade menstrual e infraestrutura escolar.
Um levantamento inédito realizado pelo Instituto Alana em parceria com o Instituto Equidade.Info revelou um cenário alarmante sobre o impacto da saúde menstrual no sistema educacional brasileiro. De acordo com os dados divulgados nesta terça-feira (26), aproximadamente 40% das alunas do Ensino Fundamental e Médio no Brasil faltam às aulas ao menos uma vez por mês devido a sintomas relacionados ao ciclo menstrual. O estudo, que contou com a participação de 2,5 mil estudantes e 303 docentes de instituições públicas e privadas em todas as regiões do país, evidencia que o absenteísmo escolar feminino não é um evento isolado, mas um problema sistêmico que compromete o acesso igualitário ao aprendizado.
A pesquisa detalha que as dores intensas são a principal barreira para a permanência dessas jovens em sala de aula. A cólica menstrual foi citada por 57,7% das entrevistadas como o fator predominante para a ausência. No entanto, o problema vai além da dor física: cerca de 30% das alunas relataram cansaço extremo e dores no corpo, enquanto 28% sofrem com dores de cabeça incapacitantes. Outro ponto relevante é o impacto psicológico e estrutural, com 19% das estudantes admitindo que faltam por vergonha ou medo de vazamentos de sangue, e 8% indicando a falta de banheiros adequados ou de produtos básicos de higiene, como absorventes, como o motivo principal para ficarem em casa.
Para o professor Guilherme Lichand, da Universidade de Stanford e supervisor técnico do estudo, os números indicam uma falha na garantia do direito constitucional à educação. Ele ressalta que a correlação entre a intensidade da dor e o absenteísmo demonstra que, se o Estado e as escolas não endereçarem a saúde menstrual, as meninas continuarão em desvantagem competitiva e pedagógica em relação aos meninos. A questão afeta inclusive o corpo docente: o levantamento aponta que 12% das professoras brasileiras também precisam se ausentar de suas funções mensalmente pelos mesmos motivos, o que gera um efeito cascata na organização das atividades escolares e no cumprimento do calendário letivo.
Especialistas em saúde pública e educação defendem que a menstruação deve deixar de ser vista como um tabu ou um mero desconforto individual para ser tratada como uma pauta coletiva. Sofia Reinach, líder de iniciativas de saúde menstrual do Instituto Alana, alerta para as consequências punitivas que essas faltas acarretam. Muitas vezes, as alunas sofrem com a perda de conteúdo e avaliações importantes sem que haja um mecanismo de reposição ou compreensão por parte da instituição. Para ela, é urgente a criação de políticas integradas que permitam o reforço escolar para quem precisa faltar e um acolhimento integral que envolva tanto o fornecimento de insumos quanto a educação sobre o tema para meninos e meninas desde cedo.
O cenário é agravado pela precocidade do início do ciclo reprodutivo. A pesquisa descobriu que 36,5% das meninas menstruam pela primeira vez até os 10 anos de idade, e a vasta maioria (65,2%) já teve sua menarca até os 11 anos. Isso significa que crianças ainda na fase inicial do Ensino Fundamental já enfrentam desafios biológicos e sociais complexos em um ambiente que muitas vezes não está preparado para recebê-las. A falta de compreensão masculina também é um obstáculo: cerca de 36,8% dos meninos declararam não refletir sobre o tema, um índice muito superior ao das meninas (19,7%), o que reforça a necessidade de currículos escolares que abordem a dignidade menstrual como uma responsabilidade de toda a sociedade.
Diante desse diagnóstico, o que se espera para o futuro próximo é uma pressão maior sobre o Ministério da Educação e secretarias estaduais para a implementação de protocolos de assistência. Além da distribuição gratuita de absorventes — medida que já vem ganhando corpo com legislações recentes —, os especialistas apontam que o próximo passo crucial é o reconhecimento formal das faltas por motivos menstruais como justificáveis. Somente através de uma visão multidisciplinar, que una saúde, educação e infraestrutura sanitária, será possível reduzir a desigualdade de gênero nas escolas brasileiras e garantir que a biologia não seja um impedimento para o desenvolvimento acadêmico de milhões de jovens.






