Professor baiano cria biocimento sustentável com resíduos e vence prêmio nacional de educação
Utilizando fibras de coco e papel reciclado, projeto de escola pública em Serrinha (BA) ganha prêmio nacional e vira negócio sustentável.

Iniciativa de professor e alunos em Serrinha, no interior da Bahia, cria biocimento com fibras de coco e papel. Projeto ganha R$ 200 mil em premiação nacional e vira startup com foco em sustentabilidade e impacto social.
Uma iniciativa educacional no interior da Bahia está redefinindo os limites do aprendizado prático e da sustentabilidade na construção civil. Em Serrinha, cidade localizada a cerca de 180 quilômetros da capital Salvador, o professor de matemática e empreendedorismo Thales Nascimento liderou um grupo de alunos do ensino médio em uma jornada de inovação que culminou na criação de um biocimento ecológico. Utilizando como matéria-prima resíduos que anteriormente seriam descartados de forma inadequada no meio ambiente — especificamente papel reciclado e fibras de coco —, o projeto transformou o laboratório escolar em uma incubadora de soluções urbanas voltadas para a população de baixa renda.
A gênese dessa inovação repousa em um desafio comum à gestão pública e ambiental: o acúmulo de excedentes vegetais e celulósicos. Diante do descarte volumoso de coco, fruto onipresente na região, e do excesso de papéis sem destinação correta na cidade, o professor Nascimento viu uma oportunidade pedagógica e social. O processo de desenvolvimento, no entanto, não foi imediato. Durante mais de um ano de experimentação intensa, a equipe enfrentou inúmeras falhas. Sem possuírem formação técnica prévia em engenharia civil, professor e alunos dedicaram-se ao estudo autodidata de composições químicas, mecânica de misturas e resistências de materiais, operando em um sistema de "erro e acerto" que consolidou o aprendizado prático dos estudantes e resultou em um produto final de alta viabilidade econômica e ecológica.
O resultado desse esforço coletivo é um bloco de biocimento que já possui a certificação oficial do Conselho Regional de Engenharia e Agronomia da Bahia (CREA-BA), atestando sua segurança e aplicabilidade. Para além do reconhecimento técnico, a iniciativa já demonstra um impacto direto no cotidiano da comunidade local. Até o momento, duas famílias em situação de vulnerabilidade em Serrinha receberam pavimentação gratuita em suas calçadas utilizando os blocos produzidos na escola. Esse braço social do projeto despertou um sentimento de pertencimento na vizinhança, que passou a atuar como fornecedora espontânea de matéria-prima, doando materiais que antes eram vistos apenas como lixo, mas que agora sustentam o crescimento da inovação estudantil.
O reconhecimento nacional consolidou-se com a participação do projeto no Prêmio LED — Luz na Educação, promovido pela TV Globo e pela Fundação Roberto Marinho. Entre um universo competitivo de mais de 2.300 propostas oriundas de todo o país, Thales Nascimento foi sagrado vencedor na categoria Educadores. A premiação, que inclui um aporte financeiro de R$ 200 mil, marca a transição do projeto acadêmico para o mundo dos negócios reais. O valor será integralmente investido na estruturação de uma startup, com a aquisição de maquinário industrial de larga escala e a montagem de uma linha de produção capaz de fabricar aproximadamente mil blocos por dia. Esta fase comercial não apenas visa a lucratividade, mas a escalabilidade de uma solução habitacional acessível que reduz a pegada de carbono do setor construtivo.
Além do sucesso técnico e econômico, o projeto "Biocimento do Sertão" carrega um profundo significado simbólico para a educação pública brasileira. No cenário educacional do Nordeste, onde muitas vezes faltam recursos básicos para a infraestrutura escolar, a capacidade de gerar tecnologia de ponta e empreendedorismo social refuta estereótipos e eleva a autoestima dos jovens envolvidos. A iniciativa também estendeu seus benefícios para o sistema prisional regional, onde o conhecimento sobre a produção de biocimento tem sido utilizado em ações de ressocialização, oferecendo uma nova perspectiva de ofício e vida para pessoas em regime de privação de liberdade. Para Thales Nascimento, o maior legado não são os tijolos físicos, mas o desenvolvimento humano: a comprovação de que o ambiente escolar público é um celeiro de talentos capazes de solucionar problemas globais a partir de realidades locais.






