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Presidente do TRT de Mato Grosso denuncia episódio de racismo estrutural em Cuiabá

Presidente do TRT-MT, Adenir Carruesco reflete sobre preconceito após ser alvo de equívoco em estabelecimento comercial.

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Redação 360 Notícia
21 de maio de 2026 às 20:003 min
Presidente do TRT de Mato Grosso denuncia episódio de racismo estrutural em Cuiabá
Foto: Reprodução
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A presidente do TRT-MT, Adenir Carruesco, relatou ter sofrido racismo estrutural ao ser confundida com funcionária em supermercado de Cuiabá. A magistrada, primeira mulher negra a presidir a Corte, utilizou o caso para propor um debate sobre preconceitos automáticos e espaços de poder.

A desembargadora Adenir Carruesco, presidente do Tribunal Regional do Trabalho da 23ª Região (TRT-MT), trouxe a público um relato contundente sobre as barreiras invisíveis, mas persistentes, do preconceito no Brasil. Durante uma visita recente a um supermercado em Cuiabá, a magistrada foi alvo de um episódio que classificou como racismo estrutural. Enquanto realizava compras como uma cliente comum, Carruesco foi abordada por outra frequentadora do estabelecimento que, de forma automática, a confundiu com uma funcionária da unidade, solicitando informações sobre a localização e disponibilidade de mercadorias. O caso, embora pudesse ser lido por alguns como uma falha cotidiana, motivou uma profunda reflexão da magistrada sobre os vieses inconscientes da sociedade brasileira.

A denúncia, realizada por meio de suas redes sociais, rapidamente ganhou repercussão no meio jurídico e na sociedade civil mato-grossense. Carruesco utilizou o episódio para ilustrar como o imaginário coletivo ainda opera sob uma lógica de exclusão, na qual a cor da pele de uma pessoa negra é imediatamente associada a funções de subalternidade ou postos de serviço, mesmo em ambientes onde circulam indivíduos de diversas classes sociais. Para a magistrada, o fato de não ser reconhecida como uma possível consumidora — ou simplesmente como uma cidadã em seu momento de privacidade — revela quão distante a sociedade ainda está de dissociar o fenótipo negro de posições que historicamente foram impostas a essa população.

A trajetória de Adenir Carruesco confere um peso institucional ainda maior ao seu desabafo. Natural do Paraná, ela construiu uma carreira sólida e respeitada no Judiciário ao longo de quase três décadas. Sua jornada no Mato Grosso começou em 1994, quando ingressou na magistratura trabalhista após ter atuado como servidora pública no Mato Grosso do Sul. Antes de chegar à presidência da Corte, a magistrada percorreu um longo caminho pelas comarcas do interior do estado, acumulando experiência em cidades como Alta Floresta e Rondonópolis. Em 2021, ela alcançou o cargo de desembargadora e, posteriormente, fez história ao se tornar a primeira mulher negra oriunda da carreira da magistratura a presidir o TRT-MT.

Mesmo diante do desconforto causado pelo episódio no supermercado, a desembargadora esclareceu que optou por não oficializar uma queixa-crime contra a cliente. A decisão foi fundamentada na compreensão de que o ataque não se tratava de uma ofensa pessoal de caráter isolado, mas sim de um sintoma de uma engrenagem social muito mais complexa e excludente. Segundo Carruesco, o foco de sua fala não é a punição individual, mas o fomento de um debate público sobre as dificuldades sistêmicas de reconhecimento de pessoas negras em espaços de poder, prestígio e decisão. Ela destacou que, ao retirar a toga, torna-se "invisível" para uma estrutura que não está habituada a ver negros em posições de liderança.

O posicionamento da presidente do TRT-MT levanta discussões essenciais sobre a representatividade no Poder Judiciário e em outros setores da gestão pública. Ao expor sua vulnerabilidade e humanidade, a magistrada reforça a necessidade de políticas de inclusão e de um letramento racial mais amplo para combater preconceitos automáticos. O caso agora serve como um marco para futuras discussões institucionais sobre diversidade, sinalizando que a presença física de negros em altos cargos, embora seja um avanço, ainda enfrenta o desafio monumental de romper com estereótipos enraizados na cultura nacional. Os próximos passos desse debate devem envolver entidades de classe e movimentos sociais, buscando transformar o episódio em um motor para mudanças na percepção social.

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