Polícia Civil apura desvios na Prefeitura de SP para financiar filme de Bolsonaro
Investigação aponta que contrato de R$ 108 milhões para instalação de wi-fi na capital pode ter financiado filme sobre o ex-presidente.

Operação da Polícia Civil investiga se parte dos R$ 108 milhões de um contrato de wi-fi da Prefeitura de SP foi desviada para produzir o filme 'Dark Horse', sobre Jair Bolsonaro. Há suspeitas de superfaturamento e notas frias.
Uma operação deflagrada pela Polícia Civil de São Paulo nesta segunda-feira (1º) colocou sob os holofotes um possível esquema de corrupção e desvio de verbas públicas envolvendo a administração municipal paulistana. A investigação busca esclarecer se recursos destinados à instalação de pontos de internet wi-fi na capital paulista foram ilegalmente direcionados para financiar a produção de um longa-metragem sobre a vida e a trajetória política do ex-presidente Jair Bolsonaro. Agentes realizaram buscas e apreensões em sete endereços distintos, incluindo a sede da Secretaria Municipal de Tecnologia e Inovação, recolhendo computadores, aparelhos celulares e uma vasta documentação contábil que pode comprovar as irregularidades apontadas pelo Ministério Público.
O foco central do inquérito é um contrato firmado entre a Prefeitura de São Paulo e o Instituto Conhecer Brasil (ICB), uma organização social sem fins lucrativos que gerenciava um projeto de R$ 108 milhões para democratizar o acesso à internet em bairros periféricos. A suspeita é de que o certame tenha sido direcionado, uma vez que o ICB foi o único participante da licitação, apesar de, teoricamente, não possuir expertise técnica consolidada no setor de telecomunicações. Além disso, a discrepância de valores chamou a atenção dos investigadores: o custo de instalação e manutenção por ponto de conexão negociado com o instituto foi significativamente superior aos valores praticados anteriormente pela Prodam, a empresa de tecnologia do próprio município, sugerindo um superfaturamento substancial.
De acordo com os dados levantados pela polícia, o contrato previa a instalação de 5 mil pontos de wi-fi, mas há indícios de que apenas 3,2 mil foram efetivamente entregues, mesmo após sucessivos aditivos que ampliaram os prazos de execução. O Ministério Público investiga pagamentos antecipados que somam R$ 26 milhões por serviços que podem nunca ter sido prestados, além do uso de notas fiscais irregulares no valor de R$ 4,7 milhões para maquiar a prestação de contas. A gravidade do caso reside na chamada "confusão patrimonial", pois a proprietária do instituto, Karina Ferreira da Gama, também é dona da produtora Go Up, responsável pelo filme "Dark Horse". Curiosamente, as duas entidades compartilham o mesmo endereço comercial na região da Avenida Paulista, o que reforça a tese de desvio de finalidade das verbas municipais para o projeto cinematográfico.
As implicações políticas do caso são amplas, especialmente devido à conexão com a figura do ex-presidente. O senador Flávio Bolsonaro manifestou-se sobre o ocorrido, pedindo que a polícia trabalhe com isenção e evite a criação de narrativas sem embasamento, defendendo que a investigação provará a inexistência de irregularidades. Por outro lado, o prefeito Ricardo Nunes defendeu a lisura do processo de contratação, afirmando que o edital seguiu todos os trâmites legais e que a ausência de outros concorrentes não invalidaria o contrato. Nunes ressaltou que, até o momento, não identificou falhas na prestação do serviço pelas métricas da prefeitura, classificando a dona da ONG como uma pessoa trabalhadora e sugerindo que a investigação poderia ter motivações políticas.
Para o cidadão paulistano, o desdobramento desta operação é crucial, pois envolve o uso de impostos que deveriam garantir a inclusão digital em áreas vulneráveis. Se comprovado o desvio para uma produção audiovisual privada, o caso pode configurar peculato, fraude em licitação e improbidade administrativa. Os próximos passos da Polícia Civil incluem a perícia nos eletrônicos apreendidos e o cruzamento de dados bancários para rastrear o fluxo do dinheiro entre as contas da prefeitura, do Instituto Conhecer Brasil e da produtora Go Up. A justiça aguarda a conclusão do relatório policial para decidir sobre possíveis indiciamentos e a suspensão imediata de repasses remanescentes ao instituto investigado.





