Prefeitura de SP retira proteção histórica de vilas operárias na Zona Leste
Decisão do Conpresp reverte proteção de 2023 e abre caminho para demolição de conjuntos históricos no Tatuapé, Belenzinho e Catumbi.

O Conpresp revogou o tombamento de três vilas operárias históricas na Zona Leste de São Paulo, atendendo a um recurso da empresa proprietária. Conjuntos no Tatuapé, Belenzinho e Catumbi perderam a proteção e podem ser demolidos para dar lugar a novos empreendimentos imobiliários.
Uma decisão recente do Conselho Municipal de Preservação do Patrimônio Histórico, Cultural e Ambiental da Cidade de São Paulo (Conpresp) marca uma mudança drástica na política de preservação da memória operária na capital paulista. Por um placar de seis votos a três, o órgão colegiado decidiu revogar o tombamento definitivo de três vilas operárias situadas na Zona Leste: a Vila João Migliari (Tatuapé), a Vila Maria Parente Migliori (Catumbi) e a Vila Raphael Parente (Belenzinho). A medida, que atende a um recurso administrativo interposto pela empresa proprietária das áreas, encerra um processo de proteção que se arrastava há cerca de três anos e coloca em risco de desaparição total remanescentes arquitetônicos que datam do final do século XIX e início do XX.
O contexto dessa disputa envolve o avanço agressivo do mercado imobiliário em bairros tradicionais da Zona Leste, especialmente o Tatuapé, que passa por um processo de verticalização acelerada. A Vila João Migliari, por exemplo, originariamente era composta por cerca de 60 sobrados, mas após anos de demolições graduais, restam apenas cinco imóveis no local. Atualmente, estas casas encontram-se em estado de abandono, desprovidas de janelas e isoladas por tapumes, aguardando o destino definitivo. A mobilização em favor da preservação dessas vilas começou em 2019, quando moradores locais e entusiastas do patrimônio histórico tentaram conter a destruição do conjunto. Na época, a prefeitura chegou a conceder uma proteção provisória após a demolição de uma parte significativa da vila ser registrada em vídeo e causar comoção pública.
O parecer técnico que havia dado sustentação ao tombamento em 2023, elaborado pelo Departamento do Patrimônio Histórico (DPH), ressaltava que essas vilas eram fundamentais para compreender o processo de urbanização e industrialização de São Paulo. De acordo com o estudo anterior, os conjuntos possuíam valor histórico e afetivo, operando como testemunhos do modo de vida da classe trabalhadora que impulsionou o desenvolvimento da cidade. A Vila Raphael Parente, no Belenzinho, era destacada por sua antiguidade, remontando aos últimos anos do século XIX, enquanto a Vila Maria Parente Migliori mantinha características arquitetônicas geminadas muito bem preservadas em suas 28 unidades. Contudo, na sessão que revogou a proteção, o presidente do Conpresp, Ricardo Ferrari Nogueira, classificou o tombamento anterior como uma "injustiça", alegando que a decisão anterior teria sido um erro administrativo que precisava ser corrigido em favor do direito de propriedade.
Essa revogação levanta debates intensos entre urbanistas e historiadores. Para especialistas como Marianna Boghosian Al Assal, ex-representante do Instituto de Arquitetos do Brasil (IAB), a preservação dessas estruturas não deveria ser vista como um entrave à modernização. Pelo contrário, a convivência entre o novo e o antigo é o que confere identidade e diversidade cultural aos bairros. A queda da proteção dessas vilas ocorre curiosamente poucos dias após o mesmo conselho decidir pela manutenção do tombamento de outros edifícios em áreas nobres da cidade, o que gera críticas sobre uma possível seletividade na preservação do patrimônio da capital, privilegiando certas estéticas ou localizações em detrimento da história operária da periferia e de bairros industriais.
O futuro imediato dessas áreas agora tende a ser a demolição para a construção de novos empreendimentos residenciais de alto padrão, que têm transformado a silhueta da Zona Leste paulistana. O Conpresp defende que sua nova análise técnica concluiu pela ausência de "valor excepcional" que justificasse o congelamento dos imóveis sob a lei do tombamento. Para o leitor brasileiro, especialmente o paulistano, o caso serve como um alerta sobre a fragilidade das políticas de proteção à memória urbana em face da pressão econômica. Enquanto a empresa proprietária ainda não revelou oficialmente os projetos para os terrenos, o destino das últimas casas da Vila João Migliari parece selado, simbolizando o fim de um capítulo importante da história do trabalho na maior metrópole do país.





