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Os Desafios da Adoção Tardia: Por que a conta não fecha no Brasil?

Com mais de 32 mil pretendentes no sistema, a preferência por bebês deixa crianças mais velhas e com deficiência em uma espera indefinida.

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Redação 360 Notícia
26 de maio de 2026 às 01:003 min
Os Desafios da Adoção Tardia: Por que a conta não fecha no Brasil?
Foto: Reprodução
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O Dia Nacional da Adoção levanta o debate sobre a dificuldade de encontrar lares para crianças acima de 8 anos. Com mais de 32 mil pretendentes cadastrados, a conta não fecha devido à preferência por bebês, deixando milhares de jovens em abrigos à espera de uma família.

Nesta segunda-feira, o Brasil celebra o Dia Nacional da Adoção, uma data que convida a sociedade a refletir sobre um dos gargalos mais persistentes do sistema judiciário e assistencial: o descompasso entre o perfil desejado pelos pretendentes e a realidade das crianças que aguardam um lar. O principal obstáculo identificado por especialistas e autoridades é a chamada "adoção tardia", focada em crianças com mais de 8 anos de idade. Embora existam milhares de famílias habilitadas no Cadastro Nacional de Adoção, a conta não fecha, pois a maioria busca bebês ou crianças na primeira infância, deixando uma legião de pré-adolescentes e adolescentes em uma espera que parece eterna.

Historicamente, o processo de adoção no país é marcado por uma burocracia necessária, visando a segurança do menor, mas que acaba esbarrando em preconceitos culturais. Muitas famílias acreditam que a experiência da parentalidade só é completa se houver a fase das fraldas e das primeiras palavras. No entanto, relatos de famílias que optaram pela adoção de crianças mais velhas, como o casal Aslan Cabral e Arthur Aguiar, mostram que a formação de vínculos é uma construção diária baseada no cuidado e no estudo da parentalidade prática. Para eles, o amor não depende da idade de chegada, mas da disposição em transformar a rotina e o sentido da vida para acolher um novo membro.

Os números atuais revelam uma realidade preocupante. Existem hoje mais de 36 mil crianças e adolescentes vivendo em casas de acolhimento em todo o território nacional. Desse total, cerca de 6 mil estão juridicamente aptas para a adoção, o que significa que já passaram pelo processo de destituição do poder familiar. No outro lado da balança, há mais de 32 mil pretendentes cadastrados. O abismo estatístico ocorre porque a maioria desses candidatos impõe restrições severas: preferência por recém-nascidos, ausência de irmãos e inexistência de problemas de saúde. À medida que os jovens completam aniversários nos abrigos, suas chances de encontrar uma família diminuem drasticamente, criando o ciclo da invisibilidade.

O Poder Judiciário explica que a permanência prolongada em abrigos muitas vezes ocorre devido às tentativas de reintegração familiar. Segundo o juiz Ricardo de Sá Leitão, a prioridade da lei é sempre que a criança retorne à sua família de origem, desde que o ambiente seja seguro. Quando todos os esforços nesse sentido falham, inicia-se o processo de perda do poder familiar para viabilizar a adoção. É nesse intervalo que o tempo se torna o maior inimigo. Além da idade, crianças com deficiência enfrentam dificuldades ainda maiores para serem aceitas, sendo muitas vezes as "últimas da fila" no sistema.

Para mitigar a solidão daqueles que esperam, existem alternativas como o acolhimento familiar. Famílias como a de Diego e Andréia abrem suas casas para oferecer um lar provisório enquanto a Justiça define o destino final da criança. Embora seja uma medida temporária, esse modelo garante ao menor o acesso à convivência comunitária e ao afeto individualizado, direitos fundamentais previstos no Estatuto da Criança e do Adolescente (ECA). O desafio das políticas públicas agora reside em desconstruir o mito de que apenas a adoção de bebês é gratificante, incentivando uma visão de "gestação no coração" que abrace todas as idades e necessidades.

O cenário futuro depende de uma mudança cultural e educacional. Assistentes sociais e magistrados têm trabalhado para sensibilizar os pretendentes sobre os benefícios da adoção tardia, destacando que a gratidão e o vínculo de crianças maiores são igualmente intensos. Para o leitor brasileiro, entender que a adoção é, acima de tudo, um ato de serviço e responsabilidade social, é o primeiro passo para reduzir o número de jovens que deixam os abrigos ao completarem 18 anos sem nunca terem experimentado o que significa ter um pai ou uma mãe.

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