“O Bolo que Carregava o Peso da Memória: Quando a Infância se Parte e o Sabor Vira Luto”
E houve um bolo para celebrar. Apenas um bolo.


Por: Antonio Marcos de Souza (AL)
Sabe aquele bolo de aniversário de chocolate, simples, meio torto, mas feito com carinho? Pois é. Aquele era o meu bolo. Meu aniversário mesmo é em maio, mas insisti tanto para minha mãe fazer uma festa que ela acabou propondo que eu arrumasse o dinheiro. E eu arrumei — do jeito que dava. No terreno, no bairro de casa havia um ferro-velho, e eu vivia catando latinhas e pedaços de cobre pelas ruas no caminho da escola. Às vezes ia sozinho, outras vezes com meu melhor amigo, aquele que morreu atropelado um mês antes, bem na porta de casa, no dia do próprio aniversário.
Foi uma das cenas mais monstruosas que já vi. Eu vi a morte dele. Os gritos ainda ecoam como se fossem de hoje. Ele esperava o pai chegar com um presente. Nunca tinha visto dor tão grande até aquele dia.
Mas voltando à minha festa: escolhi o dia 20 de setembro de 1987, às cinco da tarde. Um domingo como este de 2026. No sábado, a casa estava em movimento. Minha mãe lavava panos no quintal, uma panela de pressão chiava no fogo a carvão, e meu irmão Daniel passava amoníaco nas pernas para “dourar os pelos”. Minha mãe ameaçava, ele ria, eu me acabando de ri. Era uma bagunça boa, sabe? A gente queria deixar tudo pronto para o dia vinte.
No domingo, o sol nasceu diferente. O céu parecia mais brilhante, não conseguia decifrar. Talvez fosse só imaginação minha, mas que estava diferente, isso estava. Minha mãe nunca acertou fazer bolos — ou saíam crus ou solados. Mas aquele, por algum motivo que não acredito ser destino, saiu perfeito. Até ela ficou surpresa; ao desenformar, deu para ver a alegria brilhando naqueles olhos. Talvez porque ela tenha colocado ali o ingrediente que mais importava: o amor, a vontade de me ver feliz. Era um bolo simples, de calda de chocolate, com o buraco da forma tampado por uma sacola plástica. Em cima, uma vela de sete anos. Ficou guardado sobre a geladeira.
Só que aquele dia não era meu aniversário. Era o aniversário de um assassinato que marcaria minha vida, dos meus irmãos, da minha família para sempre. O assassino usou a minha festa para comemorar a morte dela. Essa história já contei muitas vezes, mas sempre dói. E hoje faço um recorte no tempo.
O bolo passeou por várias casas até chegar na dos meus avós. Já era terça-feira, 22 de setembro. Não lembro quem foi buscá-lo na casa da vizinha, a Beu. Só lembro que, quando acordei, ele estava lá: em cima da mesa, ao lado de uma garrafa de café torrado artesanalmente.
Meu Deus… lembro do gosto daquele bolo. Uma mistura de dor, amargor, tristeza e saudade. Comer era garantir que o último sabor feito pelas mãos dela permanecesse em mim. Ao mesmo tempo, eu queria que não acabasse, que pudesse guardar para sempre.
A data de hoje, 20 de setembro, marca duas coisas: o que ganhei e o que perdi. Ou talvez o que perdi por completo. Talvez seja por isso que detesto bolo confeitado. Gosto de bolo simples. Porque como aquele, só aquele mesmo. Sabe quando você quer que algo permaneça intocável, para que nada substitua? É o sabor daquele bolo. Por enquanto, não terei outro.
Essa dor ainda rasga o peito, dilacera a gente, sabe? Dizem que devo deixar no passado, mas certas dores eu prefiro que fiquem vivas — minha mãe, por exemplo. Quero ela viva na memória, e nada vai me afastar disso.
Um ano, vinte dias de diferença. Duas tragédias. Na mesma rua. No mesmo bairro. Uma casa em frente à outra. Duas mortes presenciadas. Duas famílias destruídas. Dois destinos cruzados e reescritos sem final feliz, como em alguns filmes em que o autor não dá um desfecho alegre, pois a arte deve imitar a vida e retratar como ela realmente é na vida real, diferente das produções cinematográficas dos "felizes para sempre."
E houve um bolo para celebrar.
Antonio Marcos de Souza
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Sobre este conteúdo
Autor: Antonio Marcos de Souza
Publicado: 21 de setembro de 2026 às 05:26
Atualizado: 20 de setembro de 2026 às 19:31
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