E daí, se meu luto não acabou?
E se meu luto não acabou, que assim seja. Ele é parte de mim, da minha história, e da memória de quem nunca deixará de ser minha mãe.

Chegando setembro, o mês que mudou minha vida. Não há um único dia em que eu não me lembre da morte de minha mãe. São 39 anos de uma saudade dolorida, de um vazio que nunca se preenche, de solidão e de falta — tanta falta. Às vezes me pergunto: como posso sentir tamanha saudade de alguém com quem convivi apenas sete anos? Mas não importa. Talvez justamente por tudo o que vi e vivi, essa dor se tornou ainda maior.
Passei por todas as camadas da vida e hoje, aos 47 anos, meu luto não terminou. Pelo contrário, só cresce. Dói pensar que nunca ouvi um “eu te amo” dela, e que também não tive tempo de dizer. Na infância, a gente acredita que os pais são eternos, e só quando os perdemos entendemos o quanto cada palavra não dita pesa.
Machuca saber que ela não me viu crescer. Não tive tempo de mostrar minhas lições de casa, de ouvir um “parabéns, bom trabalho”. Ela não esteve na minha formatura, não me viu vestir a beca de magistério, nem se orgulhar do filho que se tornou professor. Quem me deu um pouco desse abraço foram meus irmãos e meus avós. Lembro do meu avô, em êxtase de orgulho, caminhando comigo do Bairro Humberto Alves até a Escola Rui Palmeira. Para ele, acompanhar-me era motivo de honra. Mas minha mãe não viu nada disso.
Ela não presenciou minhas conquistas, nem minhas frustrações. Não esteve ao meu lado quando me tornei diretor de escola por duas vezes. No discurso de reinauguração da Escola Iramilton, falei dela com orgulho: o filho de uma merendeira assumindo uma função importante. Meus irmãos, cunhada e sobrinha estavam lá, mas faltava o olhar dela. Estou envelhecendo sem que ela me veja envelhecer, e também não pude vê-la envelhecer. Esse é um dos maiores vazios: não compartilharmos o tempo.
Nada substitui, nada completa, e nunca serei o mesmo. O luto permanece vivo, 39 anos depois, tão nítido como se fosse ontem. Recuso-me a esquecer. E se meu luto não acabou, que assim seja. Ele é parte de mim, da minha história, e da memória de quem nunca deixará de ser minha mãe.
Antonio Marcos de Souza
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