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Igreja em Minas faz reparação histórica e reconhece primeiro padre negro de Belo Horizonte

Padre Francisco Martins Dias, que fundou o primeiro jornal da capital, terá sua foto incluída em galeria oficial após décadas de silenciamento.

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Redação 360 Notícia
22 de maio de 2026 às 06:003 min
Igreja em Minas faz reparação histórica e reconhece primeiro padre negro de Belo Horizonte
Foto: Reprodução
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A Arquidiocese de Belo Horizonte fará o reconhecimento histórico do padre Francisco Martins Dias, primeiro pároco negro da capital. O sacerdote, que participou da fundação da cidade e fundou o seu primeiro jornal, teve sua trajetória invisibilizada por décadas pela memória oficial.

A Arquidiocese de Belo Horizonte anunciou um importante passo em direção à preservação da memória e à reparação histórica ao reconhecer formalmente a trajetória do padre Francisco Martins Dias. O religioso, um homem negro que exerceu papel fundamental na transição entre o antigo Arraial do Curral del Rei e a inauguração da capital mineira, terá seu retrato finalmente incluído na galeria oficial de párocos da Paróquia Nossa Senhora da Boa Viagem, localizada na região central da cidade. A cerimônia solene está programada para ocorrer no dia 27 de maio de 2026, marcando o fim de um silenciamento que perdurou por décadas nas instituições religiosas locais.

A trajetória de Francisco Martins Dias não é apenas um registro eclesiástico, mas um componente vital da própria fundação de Belo Horizonte. Ele serviu como o último vigário da paróquia que atendia à comunidade do Curral del Rei e, consequentemente, tornou-se o primeiro pároco da cidade planejada que surgia no final do século XIX. Apesar dessa posição de liderança e da relevância de sua presença em um momento de profunda transformação urbana e política, o nome e a efígie do sacerdote foram sistematicamente omitidos dos registros oficiais e das galerias de memória, um fenômeno que estudiosos contemporâneos atribuem ao racismo estrutural e ao apagamento da intelectualidade negra no Brasil pós-abolição.

Para além de suas funções sacerdotais, o padre Francisco Martins Dias foi um personagem polivalente e influente na vida pública da capital. Ele é creditado como o fundador do primeiro jornal impresso de Belo Horizonte e um dos cronistas inaugurais a registrar os primeiros passos da metrópole mineira. Sua atuação como jornalista e pensador revela uma faceta intelectual que, muitas vezes, foi ignorada em prol de uma narrativa eurocêntrica da história mineira. A proposta para o reconhecimento de sua importância partiu do padre Mauro Luiz da Silva, que dedicou esforços para pesquisar e provar a relevância do clérigo negro frente ao processo de invisibilidade histórica que até hoje afeta diversas personalidades da diáspora africana na construção do país.

O gesto da Arquidiocese ocorre em um momento em que a sociedade brasileira e as instituições tradicionais são cada vez mais instadas a revisitar suas origens e corrigir lacunas éticas e sociais. A inclusão do retrato no Lavabo da antiga Matriz de Nossa Senhora da Boa Viagem simboliza uma abertura para o diálogo sobre representatividade racial dentro da Igreja Católica. A ausência de registros visuais de padres negros nas galerias históricas, mesmo quando estes ocuparam cargos de suma importância, reflete como a memória coletiva foi moldada para exaltar determinados perfis em detrimento de outros. Agora, ao dar rosto a Francisco Martins Dias, a capital mineira recupera uma parte essencial de seus alicerces morais e culturais.

A cerimônia de quarta-feira, prevista para durar cerca de uma hora, deve reunir lideranças religiosas, historiadores e o público interessado em questões de patrimônio e reparação racial. O evento é visto como um precedente importante para que outras paróquias e instituições mineiras revejam seus arquivos e busquem identificar outros nomes que possam ter sido esquecidos pelo tempo. A reconciliação com o passado de Belo Horizonte, sob a perspectiva da diversidade, fortalece a identidade da cidade e oferece às futuras gerações uma visão mais honesta e plural sobre quem foram os verdadeiros heróis e pioneiros da construção da capital, demonstrando que a fé e a cidadania negra sempre estiveram presentes no coração de Minas Gerais.

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