Cafeicultores travam vendas no Brasil apesar de projeções de safra recorde para 2026
Divergências entre previsões de mercado e realidade no campo paralisam negociações de café arábica em Minas Gerais.

Enquanto consultorias projetam uma safra recorde de café de 70 milhões de sacas para 2026, produtores brasileiros e cooperativas mineiras travam as vendas por discordarem dos números e dos preços baixos oferecidos pelo mercado externo. O impasse gera um clima de cautela no agronegócio.
O cenário para a cafeicultura brasileira em 2026 apresenta um paradoxo que desafia analistas e agentes do mercado financeiro. Embora consultorias privadas e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sinalizem para a possibilidade de uma safra recorde, ultrapassando a marca de 70 milhões de sacas de 60 kg, o clima nas lavouras e nas sedes das principais cooperativas de Minas Gerais é de cautela. Atualmente, os produtores estão "travando" as vendas, resistindo à pressão de baixa nos preços internacionais e discordando da visão otimista de que o volume produzido superará o marco histórico estabelecido em 2020. Esse braço de ferro ocorre em um momento crucial, com o início da colheita do café arábica nas principais regiões produtoras do país.
Para o setor, o ano de 2020 permanece como a "safra de ouro", quando a combinação perfeita entre fatores climáticos, manejo técnico e o ciclo de bianualidade positiva resultou em produtividades excepcionais. Lideranças de importantes cooperativas, como a Cocatrel e a Coocacer, argumentam que o cenário atual, embora favorável, não apresenta os mesmos elementos que justificariam uma quebra de recorde isolada no café arábica. O sentimento no campo é de que a produção se aproximará dos bons desempenhos vistos em 2023 e 2024, mas sem atingir os picos previstos por estimativas externas. Esse descrédito quanto ao "super recorde" é um dos pilares que sustenta a postura vendedora mais conservadora dos cafeicultores mineiros neste semestre.
A paralisação dos negócios também é alimentada por um descompasso significativo entre os preços ofertados pelos compradores internacionais e as pretensões de venda dos produtores. No centro desse conflito comercial estão os "diferenciais" em relação às cotações da Bolsa de Nova York. Representantes da Cocatrel apontam que a distância entre o que o mercado externo se dispõe a pagar e o custo de aquisição junto ao produtor brasileiro chega a 50 centavos de dólar por libra-peso em alguns casos. Enquanto as tradings e exportadores pressionam por preços menores baseados na expectativa de abundância de grãos, o produtor, capitalizado pelos bons lucros das safras recentes, opta por segurar o estoque à espera de condições mais vantajosas.
No caso da Cooxupé, a maior cooperativa de café do mundo, a leitura é de que o possível recorde nacional pode vir da soma das variedades arábica e conilon (robusta), mas não necessariamente do arábica de forma isolada. A cooperativa projeta um aumento no recebimento de grãos em comparação ao ano anterior, mas mantém cautela quanto à exportação total, prevendo uma queda no volume anual devido aos baixos estoques registrados no primeiro semestre de 2026. Esse cenário reforça a estratégia de priorizar o mercado interno ou manter o fluxo comercial em um ritmo mais lento até que as primeiras colheitas cheguem efetivamente aos armazéns e a realidade produtiva seja confirmada.
Para o leitor brasileiro e o consumidor final, esse impasse no agronegócio pode ter reflexos nos preços das prateleiras e na balança comercial do país. Como maior exportador global de café, o ritmo das vendas brasileiras dita a tendência mundial. Se os produtores continuarem retendo a produção, a escassez relativa de oferta no mercado imediato pode sustentar preços elevados, mesmo diante de projeções de safra recorde. Os próximos meses serão decisivos: conforme a colheita avance e a qualidade do grão seja atestada, o mercado deve encontrar um novo ponto de equilíbrio entre a oferta abundante sugerida pelo governo e a realidade de custos e produtividade defendida por quem está na linha de frente da produção de café no sul de Minas e no Cerrado.






