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Estudo vincula bactéria bucal ao desenvolvimento da endometriose em 64% das mulheres

Pesquisa identifica bactéria oral no útero de pacientes e sugere que o uso de antibióticos pode representar uma nova frente no tratamento da doença crônica.

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Redação 360 Notícia
22 de maio de 2026 às 08:003 min
Estudo vincula bactéria bucal ao desenvolvimento da endometriose em 64% das mulheres
Foto: Reprodução
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Estudo japonês revela que a bactéria Fusobacterium, comum na flora bucal, está presente em 64% das mulheres com endometriose. A descoberta sugere que o tratamento com antibióticos pode ser uma nova alternativa para reduzir as lesões e inflamações causadas pela doença.

Uma nova e promissora perspectiva sobre as origens e o tratamento da endometriose acaba de ser revelada por um estudo científico conduzido pela Faculdade de Medicina de Nagoya, no Japão. Publicada na prestigiosa revista "Science Translational Medicine", a pesquisa identificou uma conexão direta entre a presença da bactéria Fusobacterium nucleatum — um microrganismo que habita comumente a flora bucal humana — e o desenvolvimento da doença. De acordo com os achados, cerca de 64,3% das pacientes diagnosticadas com endometriose apresentavam a referida bactéria em seus tecidos endometriais, em contraste com apenas 7,1% das mulheres no grupo de controle, que não sofriam da condição.

A endometriose é uma patologia crônica caracterizada pelo crescimento de tecido similar ao endométrio fora do útero, afetando aproximadamente uma em cada dez mulheres em idade reprodutiva em todo o mundo. No Brasil, o cenário é igualmente preocupante, com milhões de mulheres sofrendo de sintomas severos como dor pélvica crônica, desconfortos menstruais debilitantes e infertilidade. Historicamente, o diagnóstico é desafiador e muitas vezes invasivo, levando, em média, dez anos para ser confirmado após os primeiros sintomas. A descoberta de um agente biológico específico, como a Fusobacterium, abre caminhos para diagnósticos mais precoces e novas estratégias de tratamento clínico.

O mecanismo identificado pelos cientistas japoneses sugere que a migração da bactéria da boca para o sistema reprodutor, provavelmente via corrente sanguínea em contextos de doenças periodontais ou gengivites, altera o microambiente uterino. Uma vez instalada no útero, a Fusobacterium desencadeia uma resposta inflamatória agressiva. O estudo detalha que o patógeno ativa a via de sinalização TGF-β1, uma proteína fundamental nos processos de cicatrização e fibrose. Essa ativação transforma células anteriormente "adormecidas" (fibroblastos quiescentes) em miofibroblastos ativos, que produzem a proteína TAGLN e facilitam a proliferação, migração e fixação de lesões endometrióticas em órgãos como os ovários.

Além da observação em humanos, os pesquisadores realizaram testes laboratoriais em modelos animais para validar a eficácia de novas intervenções. Em camundongos infectados com a bactéria oral, as lesões de endometriose cresceram mais rapidamente e apresentaram maior densidade inflamatória. No entanto, ao administrar antibióticos específicos — metronidazol e cloranfenicol —, os cientistas conseguiram não apenas eliminar a presença da bactéria, mas também reduzir significativamente o tamanho e o número das lesões. Essa descoberta é considerada um divisor de águas, pois sugere que o tratamento com antibióticos poderia, futuramente, substituir ou complementar cirurgias e tratamentos hormonais de longo prazo, que frequentemente possuem efeitos colaterais severos.

Apesar da empolgação da comunidade médica internacional, especialistas brasileiros ressaltam a necessidade de cautela quanto ao uso indiscriminado de antibióticos. A Dra. Tania Vergara, vice-presidente da Sociedade Brasileira de Infectologia, alerta que o uso incorreto desses medicamentos pode gerar resistência bacteriana e desequilibrar a microbiota protetora do organismo. O próximo passo da ciência é realizar ensaios clínicos em humanos para determinar protocolos seguros. Para as mulheres brasileiras, a pesquisa traz a esperança de que, no futuro, um simples exame para detecção bacteriana e um tratamento medicamentoso focado possam erradicar ou mitigar os avanços de uma doença que compromete drasticamente a qualidade de vida e a saúde reprodutiva feminina.

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