Economia

Produtores de café resistem a vender safra apesar de projeções recordes para 2026

Divergências entre projeções de consultorias e a realidade nas lavouras de Minas Gerais travam exportações e geram impasse sobre preços da commodity.

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Redação 360 Notícia
22 de maio de 2026 às 07:003 min
Produtores de café resistem a vender safra apesar de projeções recordes para 2026
Foto: Reprodução
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O setor cafeeiro enfrenta um impasse comercial: enquanto consultorias preveem safra recorde acima de 70 milhões de sacas, produtores em Minas Gerais discordam do otimismo e seguram as vendas devido aos baixos preços oferecidos pelos compradores internacionais.

O mercado cafeeiro brasileiro atravessa um momento de tensões e divergências estratégicas entre o que projetam as consultorias econômicas e a realidade percebida nos campos de Minas Gerais. Enquanto analistas e a Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) sugerem que o Brasil está prestes a colher uma safra recorde em 2026, com estimativas que ultrapassam a marca de 70 milhões de sacas de 60 kg, os produtores rurais e as grandes cooperativas adotam uma postura muito mais cautelosa. Esse ceticismo nas lavouras, somado a um desajuste significativo entre os preços oferecidos por compradores internacionais e as expectativas de remuneração dos cafeicultores, está resultando em um travamento das transações comerciais voltadas à exportação.

Historicamente, o ano de 2020 é utilizado como a régua máxima de produtividade para o café arábica no Brasil. Naquele ciclo, uma conjunção rara de fatores climáticos favoráveis, manejo técnico preciso e o pico da bianualidade da cultura culminaram em volumes extraordinários. Para as lideranças de cooperativas influentes, como a Cocatrel, sediada no Sul de Minas, e a Coocacer, no Cerrado Mineiro, a atual colheita — embora tecnicamente boa — dificilmente atingirá os patamares de excelência observados há seis anos. O argumento central dos produtores é que, até que os grãos estejam efetivamente estocados nos armazéns, qualquer projeção otimista de recorde histórico para o tipo arábica deve ser vista com ressalvas, diferindo do otimismo dos agentes governamentais e privados.

O cenário comercial reflete essa incerteza. Atualmente, o mercado de exportação de café encontra-se em um estado de "compasso de espera". Segundo representantes da Cooxupé, a maior cooperativa e exportadora de café do mundo, existe um abismo entre o "bid" (a oferta de compra) enviado pelo mercado externo e o preço que o produtor rural considera justo para abrir mão de seus estoques. Essa discrepância é acentuada pelo fato de que muitos cafeicultores estão capitalizados, fruto de vendas realizadas a preços elevados em anos anteriores, o que lhes confere a robustez financeira necessária para segurar o produto e aguardar cotações mais favoráveis, em vez de aceitar as ofertas atuais que, segundo as cooperativas, não cobrem as margens operacionais de exportação nas condições vigentes.

No detalhamento dos números, a Cooxupé projeta que poderá receber cerca de 6,8 milhões de sacas nesta temporada, um volume expressivo, mas ainda inferior aos 8 milhões registrados em 2020. No que tange aos embarques internacionais, a expectativa é de uma queda, totalizando 4,4 milhões de sacas, devido ao desempenho mais fraco registrado na primeira metade do ano, quando os estoques de passagem estavam baixos. O mercado interno, por outro lado, tem ganhado mais atenção das cooperativas, visto que as operações logísticas e financeiras para o exterior estão sendo prejudicadas pela diferença gritante na paridade de preços em relação à Bolsa de Nova York, onde os diferenciais pedidos pelos vendedores estão muito distantes do que os comerciantes globais estão dispostos a arcar.

Para o leitor brasileiro e para a economia nacional, o desenrolar dessa queda de braço é crucial, pois o Brasil ocupa a posição de maior exportador global da commodity. O travamento das exportações pode gerar impactos no saldo da balança comercial e na circulação de divisas. O desdobramento esperado para os próximos meses depende diretamente do ritmo da colheita e da pressão que o fluxo de entrada de café novo exercerá sobre os preços. Se a safra se confirmar tão produtiva quanto sugerem as consultorias, a tendência natural seria uma correção de preços; contudo, a resistência do produtor em vender pode manter o mercado em baixa liquidez por mais tempo, desafiando a lógica tradicional de oferta e demanda no setor agrícola.

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