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Economia pela liberdade: O papel das poupanças na conquista da alforria no Brasil

Registros da Caixa Econômica revelam o esforço financeiro de escravizados para comprar a liberdade, enquanto MPF cobra transparência sobre valores históricos.

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Redação 360 Notícia
13 de maio de 2026 às 16:002 min
Economia pela liberdade: O papel das poupanças na conquista da alforria no Brasil
Foto: Reprodução
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Pesquisa em registros bancários do século XIX revela como pessoas escravizadas utilizaram cadernetas de poupança para financiar a própria liberdade antes da abolição por decreto.

Documentos preservados pela Caixa Econômica Federal trazem à luz uma perspectiva pouco explorada sobre a conquista da liberdade no Brasil imperial: a autonomia financeira de pessoas escravizadas. Um conjunto de 158 cadernetas de poupança, emitidas entre 1861 e 1888, revela que o acesso à alforria foi muitas vezes fruto de um rigoroso esforço de economia de réis, a moeda da época. Essa movimentação foi impulsionada por um decreto de 1874, que garantiu aos homens e mulheres escravizados o direito de manter contas bancárias sem depender da autorização de seus senhores, protegendo assim o chamado pecúlio para o pagamento de suas obrigações ou compra da própria liberdade.

Os registros detalham trajetórias individuais e familiares marcadas pela resiliência. Há exemplos de trabalhadores que pouparam durante anos para indenizar seus proprietários, como o caso de Theobaldo, que acumulou mais de 500 mil réis, e de mulheres que utilizaram seus saldos para garantir a carta de alforria em negociações diretas. A solidariedade também aparece nos documentos: africanos libertos costumavam utilizar suas economias para financiar a soltura de filhos ou cônjuges que ainda permaneciam sob o regime de escravidão. Apesar da autonomia financeira, o preconceito institucional era evidente nos registros, que classificavam os titulares por termos como "cria", "pardo" ou "afetado" para delimitar sua origem e cor.

O levantamento da Caixa ocorre após uma cobrança do Ministério Público Federal sobre o destino dos fundos depositados por pessoas escravizadas. Contudo, especialistas e historiadores criticam a abrangência da pesquisa, apontando que o relatório é insuficiente por focar apenas em cadernetas encerradas e ignorar livros de conta corrente mais amplos. Há também um viés geográfico, já que a maioria dos documentos provém de Mato Grosso, o que pode não representar a realidade de todo o território nacional. Em resposta, o MPF solicitou novas fiscalizações técnicas e maior transparência sobre como a instituição geriu os valores não reivindicados após a morte dos poupadores.

O debate brasileiro sobre o papel das instituições financeiras na escravidão ganha força conforme bancos globais e universidades internacionais implementam programas de reparação técnica e histórica. No Brasil, embora instituições como o Banco do Brasil já tenham reconhecido sua responsabilidade no passado, ainda não existem políticas públicas estruturadas para reparação econômica ou fundos de memória voltados aos descendentes. A análise desses documentos bancários é vista como um passo essencial para compreender a complexidade das relações de poder e as estratégias de sobrevivência da população escravizada no século XIX.

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