Classificação de facções como terroristas pelos EUA pode gerar efeito reverso para Flávio Bolsonaro
Especialistas alertam que sanções norte-americanas contra facções brasileiras podem atingir sistema financeiro e aliados do senador do PL.

A classificação de PCC e Comando Vermelho como organizações terroristas pelos EUA gera alerta no Brasil. Especialistas apontam que a medida pode atingir aliados políticos e investidores da Faria Lima, prejudicando a pré-candidatura de Flávio Bolsonaro à Presidência.
A recente decisão do governo dos Estados Unidos de classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas internacionais gerou um intenso debate no cenário político e econômico brasileiro. O anúncio ocorreu logo após reuniões estratégicas do senador Flávio Bolsonaro (PL-RJ), pré-candidato à Presidência, com o presidente Donald Trump e o secretário de Estado, Marco Rubio. Embora a medida seja vista por aliados como um trunfo na pauta de segurança pública, especialistas alertam que a estratégia pode gerar efeitos colaterais severos e inesperados, atingindo figuras influentes da elite financeira e política do país.
O contexto dessa decisão se baseia em uma mudança de paradigma na diplomacia americana sobre o crime organizado na América Latina. Historicamente, grupos como o PCC e o CV eram vistos como organizações criminosas motivadas exclusivamente por lucro econômico, o que os diferenciava de grupos terroristas com motivação ideológica ou política. No entanto, a administração Trump optou por derrubar essa distinção, tratando as facções brasileiras como ameaças diretas à segurança nacional dos Estados Unidos. Essa nova classificação abre caminho para a imposição de sanções financeiras pesadas, restrições de vistos e até a possibilidade de intervenções coordenadas, seguindo o modelo adotado anteriormente com os cartéis de drogas mexicanos.
Para Dawisson Belém Lopes, professor de política internacional e comparada da UFMG, a manobra pode se transformar em um "tiro pela culatra" para o próprio Flávio Bolsonaro. O especialista aponta que o endurecimento das medidas americanas pode expor conexões indesejadas entre o crime organizado e setores da economia formal, especificamente na região da Faria Lima, em São Paulo. Investigações recentes da Polícia Federal e da Receita Federal já demonstraram que o crime organizado utiliza fundos de investimento e empresas financeiras para lavar bilhões de reais. Se as sanções americanas atingirem investidores e bancos que, mesmo sem dolo direto, movimentaram recursos dessas facções, o apoio financeiro à candidatura do senador pode ser seriamente abalado.
Além do impacto econômico, há o risco na esfera política nacional. O governo de Luiz Inácio Lula da Silva pode utilizar a medida para questionar a soberania nacional, classificando a articulação do senador com Washington como "entreguismo". Ao convidar a influência externa para lidar com problemas de segurança interna, o pré-candidato da oposição dá margem para que o atual governo argumente que a proposta fere a autonomia do Estado brasileiro. Adicionalmente, o histórico recente mostra que a própria classe política brasileira pode ser visada; casos como o de ex-parlamentares suspeitos de ligação com facções no Rio de Janeiro e investigações de lavagem de dinheiro no setor de combustíveis indicam que o "pente-fino" americano pode alvejar aliados próximos à direita política.
Apesar do potencial de crise, analistas acreditam que o sistema institucional brasileiro possui mecanismos de defesa consolidados. Lopes relembra casos anteriores em que o sistema bancário brasileiro resistiu a pressões de sanções americanas — como na aplicação da Lei Magnitsky contra figuras do Judiciário — graças ao respaldo do Banco Central e do Ministério da Fazenda. Além disso, a relevância da China como principal parceiro comercial do Brasil limita o poder de barganha absoluto de Washington. Espera-se que, assim como ocorreu no México, o governo federal adote medidas pragmáticas de cooperação em fronteiras para mitigar as tensões, sem que isso resulte em uma ruptura profunda no sistema financeiro ou na governabilidade do país.






