Além da culpa: pesquisa revela os reais motivos da má alimentação infantil no Brasil
Estudo do Instituto Pensi identifica que publicidade, custo de alimentos e sobrecarga dos cuidadores são determinantes maiores que a vontade individual na dieta das crianças.

Pesquisa conduzida pelo Instituto Pensi revela que a alimentação infantil é moldada por fatores como publicidade, preços e jornada de trabalho dos pais, indo além das escolhas individuais. O estudo defende o fim da culpabilização das famílias, destacando a necessidade de políticas públicas e regulação da indústria.
Um novo estudo conduzido pelo Instituto Pensi, intitulado "Comportamento Alimentar: Percepções e Desafios da Alimentação Saudável", traz uma perspectiva reveladora sobre a nutrição infantil no Brasil, contestando o estigma frequente de que a má alimentação das crianças é culpa exclusiva da omissão dos pais. A pesquisa, que ouviu 142 representantes de famílias em cinco capitais brasileiras (São Paulo, Porto Alegre, Fortaleza, Belém e Goiânia), identificou que a escolha do que vai ao prato é influenciada por uma teia complexa de fatores externos. Entre os principais obstáculos para uma dieta equilibrada estão o alto custo dos alimentos frescos, a extensa jornada de trabalho dos responsáveis, o ambiente alimentar do entorno, a massiva publicidade dirigida ao público infantil e o tempo excessivo diante das telas.
O levantamento assevera que o problema central não é a falta de informação. Os pais e cuidadores entrevistados demonstraram compreender perfeitamente o que constitui uma alimentação saudável — associando-a ao consumo de arroz, feijão, frutas e vegetais frescos. No entanto, existe um abismo prático entre o conhecimento nutricional e a viabilidade cotidiana. O estudo, idealizado pelo Pacto Contra a Fome com apoio da Food and Land Use Coalition (FOLU), aponta que os produtos ultraprocessados acabam funcionando como "atalhos" logísticos e financeiros. Enquanto uma fruta exige higienização, preparo e tem curta durabilidade, o produto ultraprocessado é barato, pronto para consumo e projetado industrialmente para ser altamente palatável, tornando-se uma opção sedutora para famílias exaustas e com orçamentos apertados.
A influência direta das crianças nas compras também foi destacada como um fator determinante. Muitas vezes, o carrinho de supermercado é moldado por pedidos insistentes baseados em marcas famosas, embalagens coloridas e personagens vistos em vídeos de internet. Dados do Estudo Nacional de Alimentação e Nutrição Infantil (ENANI) corroboram essa tendência, mostrando que mais de 80% das crianças brasileiras entre seis meses e dois anos já consomem ultraprocessados. Essa pressão da publicidade infantil cria um ambiente de negociação constante dentro dos lares, onde alimentos menos saudáveis são utilizados como moeda de troca, recompensa ou simplesmente para garantir que a criança se sinta saciada com algo que ela aceita comer sem resistência.
Outro pilar fundamental identificado pela pesquisa é o papel do ambiente escolar. Para as famílias de baixa renda, a escola pública é vista como um porto seguro de nutrição, onde a criança tem acesso a "comida de verdade" por meio do Programa Nacional de Alimentação Escolar (PNAE). Já em estratos de renda mais alta, a preocupação recai sobre o conteúdo das cantinas e das lancheiras. O cenário atual exige que a escola seja reconhecida não apenas como local de ensino, mas como um ambiente alimentar estratégico. Medidas recentes do Fundo Nacional de Desenvolvimento da Educação (FNDE) estão caminhando para elevar o percentual de alimentos in natura nas escolas para 85% até 2026, reduzindo drasticamente a oferta de processados.
Diante desse cenário, os especialistas defendem que a solução para a obesidade infantil e as carências nutricionais no Brasil não deve passar pela culpabilização individual, mas sim por políticas públicas robustas. É necessário regulamentar de forma mais rígida a publicidade de alimentos para crianças, subsidiar o acesso a alimentos frescos e oferecer suporte às redes de cuidado, que são majoritariamente compostas por mulheres sobrecarregadas. Ao tratar a alimentação infantil como uma responsabilidade sistêmica e coletiva, é possível aliviar o peso emocional sobre as mães e cuidadores e construir um futuro onde a dieta saudável não seja um privilégio de classe, mas um direito garantido por condições estruturais e sociais favoráveis.






