Vereadora de Praia Grande é acusada de racismo após denunciar assédio em vídeo viral
Parlamentar registrou queixa por importunação sexual, mas agora enfrenta denúncia por falas discriminatórias contra povos indígenas.

O caso envolvendo a vereadora Eduarda Campopiano, de Praia Grande, tomou proporções nacionais. Após denunciar importunação sexual em um podcast, a parlamentar passou a ser investigada por racismo após falas polêmicas sobre povos indígenas e a colonização do Brasil durante o mesmo programa.
A política e as redes sociais no litoral de São Paulo foram sacudidas por uma polêmica de múltiplas faces envolvendo a vereadora Eduarda Campopiano (PL), da cidade de Praia Grande. O que começou como uma denúncia de importunação sexual sofrida pela parlamentar durante a gravação de um podcast, rapidamente se transformou em uma crise jurídica e reputacional após a divulgação de falas da própria vereadora sobre povos indígenas. O caso, que ganhou escala nacional, expõe as tensões ideológicas e os limites do discurso em plataformas digitais, misturando denúncias de crimes contra a honra e preconceito racial.
O episódio ocorreu durante uma edição do "RedCast", cujo formato propunha um debate entre mulheres de visões opostas: "duas bruxas feministas" contra "duas cristãs submissas". Em meio a discussões sobre papel de gênero e religião, a vereadora Eduarda Campopiano foi alvo de comentários de cunho sexual explícito feitos por outra convidada, Savani Shakti. No vídeo, que viralizou e atingiu mais de dez milhões de reproduções, Savani profere frases invasivas, afirmando que "chuparia" a parlamentar e elogiando seu corpo de maneira agressiva. O caso foi registrado na Delegacia de Defesa da Mulher (DDM) de Praia Grande e está sendo oficialmente investigado pelas autoridades como importunação sexual.
Entretanto, a repercussão tomou um novo rumo quando trechos anteriores da mesma gravação vieram à tona. Neles, a vereadora defende a colonização do Brasil sob uma perspectiva controversa, agradecendo pela catequização e alegando que os povos originários praticavam canibalismo e infanticídio generalizado. Ao afirmar "Glória a Deus que a extrema direita chegou e falou para os índios: 'Galera, fazer sacrifício e comer o braço do irmãozinho não é legal'", a parlamentar gerou revolta imediata em lideranças indígenas e movimentos sociais. A artista e ativista Katú Mirim formalizou uma denúncia por preconceito de raça ou cor na Delegacia de Polícia de Campo Limpo Paulista, argumentando que as declarações ofendem a história e a dignidade dos povos indígenas brasileiros.
Para especialistas em direitos humanos e história do Brasil, as falas de Campopiano ignoram a violência intrínseca ao processo colonial, que envolveu genocídio, escravidão e o apagamento forçado de culturas milenares. Katú Mirim, em nota, reforçou que romantizar a colonização e demonizar as práticas ancestrais através de estereótipos pejorativos é uma forma de ataque direto à existência das comunidades indígenas. Por outro lado, a defesa da vereadora e seus apoiadores sustentam que as falas se inserem no campo da liberdade de expressão e da defesa de valores cristãos, embora o Supremo Tribunal Federal brasileiro tenha interpretações rigorosas sobre quando o discurso de ódio ultrapassa a barreira da opinião política.
As implicações para a carreira política de Eduarda Campopiano ainda são incertas, mas o caso já acende o debate sobre a conduta de parlamentares em espaços informais como podcasts. Enquanto a investigação por importunação sexual segue seu curso, com o podcast RedCast afirmando ter entregue as imagens completas à Polícia Civil para colaborar com as autoridades, a denúncia de racismo pode levar a um processo no Conselho de Ética da Câmara Municipal de Praia Grande. O desdobramento jurídico dependerá da análise dos delegados e do Ministério Público sobre se as falas configuram crime de racismo — que é inafiançável e imprescritível no Brasil — ou injúria racial, agora equiparada ao racismo.
O que se espera nos próximos dias é a convocação das envolvidas para depoimentos formais. A Secretaria de Segurança Pública de São Paulo (SSP-SP) confirmou que ambas as frentes de investigação estão ativas. O episódio deixa uma lição sobre a polarização no ambiente digital e a rapidez com que a imagem de uma figura pública pode oscilar entre a posição de vítima e a de acusada em um curto intervalo de tempo. Para o público brasileiro, o caso serve como um lembrete complexo sobre as nuances do debate público, onde a defesa de direitos individuais, como a integridade sexual, caminha ao lado da responsabilidade social histórica em relação às minorias étnicas.






