Palavras bonitas
Então, por favor, escreva a coisa mais bonita que você já me disse no dia que eu não puder mais lê-la, se existe um textão guardado aí para minha ausência, me manda agora, eu ainda estou aqui.

Davi Oliveira
Sabe aquele textão que você vai postar no dia que eu fui embora dessa vida? Me manda ele agora, eu queria muito ler. É meio esquisito como a gente costuma guardar as palavras mais bonitas para quando elas já não podem mais ser recebidas, né? A gente que só descobre que era extraordinário no próprio velório. Muito curioso, né? A morte parece que dá uma coragem que a vida não dá.
No dia que alguém vai embora, a gente escreve sem vergonha, diz que ama, diz que admira, conta história, confessa o impacto daquela pessoa na nossa vida, fala do abraço, da mania, da risada, daquele conselho que recebeu, publica uma foto que nunca tinha publicado, fala de coisas em público que talvez nunca teria coragem de mandar no privado. A homenagem chega, mas o homenageado já não está. Por isso eu queria muito saber se eu fui importante enquanto ainda estou aqui.
Não porque eu precise alimentar meu ego, mas porque talvez eu precise saber que aquele dia que eu sentei do teu lado sem saber o que dizer serviu para muita coisa. Aquela vez que eu te fiz sorrir quando você estava aos pedaços, algumas frases minhas que ficaram morando em você, algum momento que eu fiz você acreditar um pouco mais em você mesmo, que talvez você tenha um parágrafo inteiro sobre mim guardado aí dentro de você e eu esteja aqui vivendo sem nunca saber que ele existe. Eu quero abraço enquanto ainda tenho o braço, eu quero ouvir, tenho orgulho de você enquanto meus ouvidos ainda funcionam, sabe? Quero saber das histórias que vai contar sobre mim enquanto ainda posso interromper no meio e dizer, não, não foi bem assim, não.
Quero saber o tamanho que eu ocupo na sua vida enquanto ainda existe tempo para você ocupar um tamanho maior na minha vida. Então não espera meu silêncio para finalmente dizer tudo, eu não quero compactuar com essa mania estranha que a gente tem de entregar para ausência aquilo que a gente economiza na presença. Se eu fui casa, me conta, se eu fui abrigo, me conta, se eu fui tempestade, também pode me contar.
Se você sente orgulho de mim, não guarda isso para uma legenda, se existe alguma coisa em mim que você ama, me conta enquanto essa coisa ainda está aqui, porque eu quero poder ficar sem graça, eu quero sorrir disso, eu quero dizer, para, eu quero perguntar, sério, que você lembra disso, mas principalmente eu quero poder te responder, porque talvez depois que você terminar esse textão dizendo tudo que eu representei na tua vida, eu tenha um ainda maior guardado sobre você, e olha que desperdício bonito seria esse, duas pessoas carregando oceanos uma pela outra e morrendo de sede por nunca terem dito nada. Então fala, fala agora, que no dia que eu partir você ainda vai poder escrever sobre mim, publicar nossas fotos, contar nossas histórias, poder dizer tudo aquilo que nunca disse, mas vai ter uma diferença pequena, porém devastadora, que eu não vou poder responder. Então, por favor, escreva a coisa mais bonita que você já me disse no dia que eu não puder mais lê-la, se existe um textão guardado aí para minha ausência, me manda agora, eu ainda estou aqui.
Antonio Marcos de Souza
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Sobre este conteúdo
Autor: 360 Notícia
Publicado: 19 de agosto de 2026 às 01:25
Atualizado: 18 de agosto de 2026 às 23:05
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