Número de mulheres assassinadas cresce em Mato Grosso do Sul, aponta Atlas da Violência
Na contramão do Brasil, estado registra alta de 18,75% nos assassinatos de mulheres, aponta levantamento do Ipea e FBSP.

Mato Grosso do Sul registra aumento de 18,75% no número de mulheres mortas, indo na contramão da tendência nacional de queda. O Atlas da Violência mostra que, enquanto o Brasil reduziu homicídios femininos, MS viu tanto assassinatos quanto feminicídios crescerem no último ano.
Mato Grosso do Sul consolidou um cenário preocupante em relação à segurança pública feminina, conforme revelado pela edição mais recente do Atlas da Violência, publicada nesta terça-feira (26). O levantamento, produzido pelo Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada (Ipea) e pelo Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP), aponta que o estado registrou um salto de 18,75% no número de mulheres assassinadas entre os anos de 2023 e 2024. Enquanto no primeiro ano analisado foram contabilizados 48 homicídios de vítimas do sexo feminino, no ano seguinte esse montante subiu para 57 óbitos confirmados. Esse aumento coloca o estado em uma posição de alerta severo, especialmente por contrastar com a tendência observada em grande parte do território nacional.
Ao aprofundar os dados detalhados pela Secretaria de Estado de Justiça e Segurança Pública (Sejusp-MS), nota-se que o crescimento não se restringiu apenas aos homicídios comuns, mas atingiu diretamente os casos classificados como feminicídio — quando o crime é motivado pelo gênero da vítima ou ocorre em contexto de violência doméstica. Os registros oficiais mostram que os feminicídios em solo sul-mato-grossense subiram de 30 para 35 ocorrências no intervalo de doze meses. Esse quadro reflete dificuldades contínuas no combate à violência estrutural contra a mulher em uma região marcada por complexidades fronteiriças e uma cultura de agressividade doméstica que as políticas públicas locais ainda lutam para conter de forma efetiva.
O desempenho de Mato Grosso do Sul ganha contornos mais dramáticos quando comparado à média brasileira. O país, como um todo, apresentou uma retração de 6,7% nos assassinatos de mulheres, totalizando 3.642 vítimas em 2024, o que gera uma taxa nacional de 3,4 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes do sexo feminino. Ao todo, 19 das 27 unidades federativas conseguiram reduzir seus índices de violência letal contra a mulher. No entanto, Mato Grosso do Sul integra um grupo dissidente de sete estados onde a violência escalou verticalmente, ao lado de Ceará, Espírito Santo, Goiás, Maranhão, Paraná e Roraima. Essa discrepância sugere que as estratégias de proteção aplicadas nacionalmente podem não estar surtindo o mesmo efeito ou não estão sendo adequadamente implementadas nestas localidades específicas.
Curiosamente, os homicídios gerais no estado (envolvendo homens e mulheres) seguiram a tendência contrária à violência de gênero. Em 2024, Mato Grosso do Sul registrou 519 mortes violentas intencionais no total, o que representou uma queda de 11,1% em relação ao ano anterior. Esse índice de redução geral foi, inclusive, superior à média nacional de queda, que ficou em 6,9%. O fenômeno indica uma contradição perigosa: enquanto a segurança pública parece estar obtendo êxito em controlar a criminalidade comum e homicídios derivados do crime organizado ou conflitos de rua, as mulheres continuam perdendo a vida em índices crescentes, muitas vezes dentro do próprio lar ou por mãos conhecidas, evidenciando uma falha nas redes de acolhimento e proteção preventiva.
Para o leitor brasileiro e, sobretudo, para a população sul-mato-grossense, os dados do Atlas da Violência servem como um termômetro crítico sobre o avanço do ódio de gênero. Especialistas apontam que a alta em estados como MS exige uma revisão imediata das políticas de prevenção, como o fortalecimento da Casa da Mulher Brasileira e a expansão das patrulhas Maria da Penha para o interior do estado. A longo prazo, se o crescimento de 18,75% não for estancado, Mato Grosso do Sul corre o risco de se distanciar ainda mais das metas globais de redução de violência doméstica. O próximo passo das autoridades locais, diante da exposição desses dados, deve envolver um monitoramento mais rigoroso de medidas protetivas e o endurecimento das investigações sobre o perfil dos agressores para entender por que as mulheres do estado estão morrendo mais, enquanto o Brasil, em geral, caminha para uma redução.






