Investigação contra delegado Braz Marroni revela esquema de desvio de drogas na Paraíba
Operação Perfídus analisou 40 mil áudios e apurou desvio de entorpecentes que movimentou R$ 10 milhões em quatro anos; delegado e agentes estão detidos.

A Operação Perfídus revelou um esquema de desvio de drogas liderado pelo delegado Braz Marroni na Paraíba. Com mais de 40 mil áudios analisados, a investigação aponta que policiais se aliaram a facções para revender entorpecentes apreendidos, movimentando R$ 10 milhões.
Uma complexa operação deflagrada pela Polícia Civil da Paraíba e pelo Grupo de Atuação Especial contra o Crime Organizado (Gaeco), batizada de Operação Perfídus, revelou um esquema de corrupção sistêmica envolvendo membros da própria instituição policial e traficantes de drogas. O foco central da investigação é o delegado Braz Marroni, figura conhecida na segurança pública do estado, preso sob a acusação de liderar ou facilitar o desvio de entorpecentes apreendidos para que estes retornassem ao mercado ilegal. A magnitude da apuração impressiona pelos números: foram necessários mais de 15 meses de monitoramento contínuo e a análise minuciosa de mais de 40 mil áudios interceptados entre os suspeitos para consolidar a denúncia.
O caso tomou corpo a partir de uma denúncia inusitada feita em fevereiro de 2025 por um integrante de uma facção criminosa, que relatou ter sido vítima de um "golpe" aplicado por agentes da lei. Segundo as investigações, o grupo operava de forma estratégica: policiais civis utilizavam informações privilegiadas vindas de traficantes parceiros para localizar estoques de drogas de facções rivais. Ao realizarem as "apreensões", os agentes não oficializavam os carregamentos de forma correta, desviando grande parte da substância ilícita para ser revendida pelos seus comparsas no crime comum. De acordo com o secretário de Segurança Pública da Paraíba, Jean Nunes, os agentes estariam, na prática, alimentando a expansão de facções como o Comando Vermelho no estado, o que confere uma gravidade extrema ao caso.
O delegado Braz Marroni, que possui mais de duas décadas de serviços prestados à corporação, é descrito nos documentos judiciais como um beneficiário direto do esquema. A investigação aponta que ele não apenas era conivente com as práticas de seus subordinados, mas também coordenava a distribuição dos lucros obtidos com a venda das drogas desviadas. Foram identificadas transferências bancárias para contas ligadas ao delegado e registros de que ele chegava a cobrar agilidade na recuperação de valores de drogas vendidas a prazo. Além de Marroni, dois investigadores, conhecidos nos bastidores como "Bomba" e "Mão Branca", desempenhavam funções operacionais cruciais, como o armazenamento físico dos entorpecentes em residências particulares e a manipulação de rastreadores de veículos para encobrir os desvios.
Financeiramente, o esquema movimentou cifras vultosas, estimadas em cerca de R$ 10 milhões ao longo de quatro anos. A operação não se limitou a João Pessoa, estendendo-se ao Sertão paraibano e até ao Rio Grande do Norte, onde uma rede de colaboradores, incluindo uma mulher apontada como tesoureira, ajudava na lavagem de dinheiro. O grupo utilizava depósitos fracionados em lotéricas e transferências pulverizadas para "blindar" o patrimônio e dificultar o rastreio pelos órgãos de controle. Em resposta às prisões, a Justiça determinou o bloqueio imediato de bens e contas bancárias dos envolvidos, além do afastamento definitivo das funções públicas e a suspensão do porte de armas dos policiais militares e civis citados.
O desdobramento atual da Operação Perfídus mantém oito pessoas presas após audiências de custódia, incluindo o delegado Marroni, que foi transferido para o Presídio Especial do Valentina. A defesa do delegado manifestou-se afirmando que aguarda o acesso integral aos autos para provar a inocência do cliente, reforçando o princípio da presunção de inocência. O episódio abala a confiança nas instituições de segurança pública locais e acende um alerta sobre a infiltração do crime organizado em estruturas do Estado. O que se espera agora é o aprofundamento do processo judicial e a possível identificação de outros agentes que possam ter colaborado com a rede criminosa, enquanto a cúpula da segurança pública promete rigor na punição dos culpados.






