Saúde

Interesse comercial trava avanços na medicina, alerta pesquisadora da McGill

Para Gabriella Gobbi, a dependência de investimentos privados prioriza o retorno financeiro em detrimento da necessidade dos pacientes.

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Redação Automática
8 de maio de 2026 às 05:002 min
Interesse comercial trava avanços na medicina, alerta pesquisadora da McGill
Foto: Reprodução
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A psiquiatra Gabriella Gobbi alerta que a busca por lucros excessivos está impedindo que tratamentos inovadores para saúde mental cheguem ao mercado. Cientista também critica desigualdade de gênero na ciência internacional.

A renomada neuropsicofarmacologista Gabriella Gobbi, professora da Universidade McGill e atual líder do Colégio Internacional de Neuropsicofarmacologia, expressou profunda preocupação com os atuais mecanismos de desenvolvimento farmacêutico. Em entrevista à publicação Brain Medicine, a especialista argumentou que a inovação na área da saúde mental está sendo sufocada por interesses comerciais. Segundo Gobbi, embora a produção científica acadêmica seja robusta, a transição para testes clínicos em humanos é controlada pelo capital de risco, que prioriza o potencial de lucro em detrimento da eficácia terapêutica ou da urgência clínica.

O cenário descrito aponta para uma falha sistêmica onde descobertas promissoras e de baixo custo podem ser descartadas simplesmente por não oferecerem as margens de rentabilidade esperadas pelo setor privado. Essa lógica mercantilista assemelha-se ao fenômeno das doenças negligenciadas, que afetam populações vulneráveis em países em desenvolvimento. Por atingirem pessoas com baixo poder de compra, tais patologias não atraem o interesse da indústria, resultando em uma escassez crônica de novos tratamentos e vacinas para condições que causam grande impacto social.

A trajetória de Gobbi é marcada por investigações pioneiras, como a relação entre o consumo de Cannabis na juventude e o surgimento posterior de depressão e anedonia — a perda da capacidade de sentir prazer. Desde 2007, seu laboratório identifica vínculos entre substâncias canabinoides e alterações nos sistemas de serotonina, trabalho que se estendeu para a análise de psicodélicos muito antes da popularização atual desses estudos. A cientista ressalta que o progresso científico depende não apenas de laboratórios bem equipados, mas de um ambiente que não seja pautado exclusivamente pela voracidade financeira.

Além das barreiras econômicas, a pesquisadora denunciou os obstáculos estruturais enfrentados por mulheres na carreira acadêmica. Como a primeira mulher a presidir sua organização internacional, Gobbi destacou desde o assédio direto até desigualdades sutis, como o acesso restrito a suporte institucional e a exclusão de fóruns de decisão. Para ela, é fundamental reformular a cultura científica global para assegurar que o reconhecimento da excelência não seja prejudicado por disparidades de gênero ou por sobrecargas domésticas que costumam recair sobre as pesquisadoras.

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