Haddad mantém apoio à taxação de importados e desafia recuo político de Lula
Em entrevista, o ministro reafirma convicção técnica sobre tributação de importados e critica governadores que mantêm cobranças enquanto atacam o governo federal.

Fernando Haddad mantém defesa da taxação sobre compras internacionais de até US$ 50, contrariando recuo estratégico de Lula. Em meio a discussões sobre a sucessão presidencial e a disputa pelo governo de SP, o ministro reforça a tese de isonomia tributária para proteger o comércio nacional.
O cenário político brasileiro foi recentemente marcado por um embate de visões dentro da cúpula do Partido dos Trabalhadores (PT). Fernando Haddad, atual ministro da Fazenda (citado em contexto de pré-campanha estadual), reafirmou publicamente sua defesa pela manutenção da tributação sobre compras internacionais de até US$ 50, a popularmente chamada "taxa das blusinhas". Mesmo após o presidente Luiz Inácio Lula da Silva ter sinalizado um recuo estratégico sobre o tema, motivado por potenciais desgastes de popularidade em ano eleitoral, Haddad manteve-se firme em sua convicção técnica. Segundo o ministro, a medida não se trata de uma perseguição ao consumo de baixa renda, mas de uma necessidade fundamental de equilíbrio concorrencial entre o varejo físico nacional e as gigantes do comércio eletrônico estrangeiro.
A controvérsia ganhou novos capítulos após declarações de Lula no programa "Sem Censura", da TV Brasil, onde o presidente admitiu que Haddad tentou convencê-lo de que a taxação visava proteger a indústria brasileira. O recuo presidencial ocorreu diante de um cenário de forte pressão digital, onde o tema foi rapidamente rotulado como um "imposto sobre os pobres". No entanto, para Haddad, a lógica é baseada na isonomia tributária. Ele argumenta que uma loja física no interior de São Paulo, que gera empregos locais e paga encargos trabalhistas, não pode sofrer uma desvantagem competitiva tão agressiva frente a plataformas digitais que, até então, operavam com isenções que desequilibravam o mercado interno.
O contexto dessa disputa de narrativas está inserido em um momento de pré-campanha política intensa. Haddad, que articula sua candidatura ao governo do Estado de São Paulo, utiliza o tema para confrontar o atual governador Tarcísio de Freitas. O petista destaca que, embora o governo federal sofra o desgaste político pela taxa, os governadores estaduais também mantiveram a cobrança do ICMS sobre as mesmas mercadorias internacionais. Haddad aponta que a coerência fiscal deve ser cobrada de todos os gestores, criticando o fato de a oposição capitalizar o descontentamento popular enquanto se beneficia da arrecadação gerada pelo imposto estadual sobre as compras realizadas em plataformas como Shein e Shopee.
Para além da economia, a entrevista de Haddad revelou os bastidores das estratégias do PT para o futuro. Com a possibilidade de 2026 ser a última eleição presidencial com a participação de Lula, o partido começa a discutir o processo de sucessão. Haddad, o único petista além de Lula e Dilma Rousseff a disputar o Palácio do Planalto nos últimos anos, sugeriu uma abordagem inovadora: a realização de prévias internas. A ideia é que o partido utilize o processo de escolha do sucessor para se reconectar com a militância e com novos segmentos da sociedade, como o chamado "precariado" — trabalhadores de aplicativos e autônomos que hoje se sentem distantes do discurso tradicional sindicalista do PT.
A relevância desse debate para o leitor brasileiro é vasta. De um lado, há o impacto direto no bolso do consumidor, que viu o custo de importações baratas subir. Do outro, há a preocupação com a desindustrialização do país e o fechamento de postos de trabalho no varejo nacional. Segundo dados da Confederação Nacional da Indústria (CNI), a taxação federal teria sido responsável pela preservação de milhares de empregos no setor têxtil e calçadista. Os próximos passos dependem da capacidade do governo em comunicar essas razões técnicas de forma eficiente, evitando que o debate se restrinja apenas a polarizações ideológicas ou memes de redes sociais.
O desdobramento desse posicionamento firme de Haddad poderá ser medido nas urnas paulistas. Ao não recuar de um tema impopular, ele busca construir uma imagem de gestor técnico e responsável, contrastando com o que ele classifica como "populismo" de seus adversários. Ao mesmo tempo, ele desafia o próprio partido a se modernizar e a enfrentar questões espinhosas, como a segurança pública e a reforma tributária, de forma integral. A "taxa das blusinhas", portanto, deixa de ser apenas uma questão alfandegária para se tornar um símbolo das escolhas econômicas e políticas que o governo federal terá de sustentar nos próximos anos.






