Ex-gestora do Rioprevidência sob investigação por elo com Banco Master e Itaprevi
Investigada por fraude em auditoria e aportes irregulares, Fernanda Pereira é peça-chave em esquema que envolve bilhões do fundo de pensão estadual e municipal.

Investigações da Polícia Federal revelam que Fernanda Pereira, ex-auditora do Rioprevidência, facilitou aportes bilionários no Banco Master sem respaldo técnico. Ao assumir o Itaprevi, ela teria repetido a prática, comprometendo 20% do patrimônio do fundo municipal em aplicações de risco.
Uma investigação conduzida pela Polícia Federal revelou um esquema de possíveis irregularidades que conecta a gestão do Rioprevidência a investimentos de alto risco no Banco Master, envolvendo figuras de confiança da administração pública. No centro da polêmica está a advogada Fernanda Pereira da Silva Machado, que anteriormente ocupava o cargo de Gerente de Controle Interno e Auditoria do fundo estadual. Segundo o inquérito, ao migrar para a presidência do Itaprevi, o Instituto de Previdência de Itaguaí, na Região Metropolitana do Rio, ela teria replicado padrões de investimento que agora estão sob severo escrutínio das autoridades federais por suspeitas de corrupção e lavagem de dinheiro.
A trajetória de Fernanda Pereira é apontada pelos investigadores como um elo crucial para a entrada de recursos públicos no Banco Master, instituição controlada pelo empresário Daniel Vorcaro. Enquanto estava no Rioprevidência, sua função principal deveria ser a fiscalização e a garantia de que as aplicações respeitassem normas rígidas de segurança financeira. No entanto, a Polícia Federal afirma que ela foi a responsável por assinar atestados de credenciamento fraudulentos que permitiram ao banco operar com o fundo estadual. Mais do que uma falha técnica, a acusação sugere que a auditora agiu deliberadamente para viabilizar operações sem as análises técnicas obrigatórias, conferindo uma aparência de legalidade a aportes que colocavam em risco o patrimônio de milhares de servidores.
O volume de recursos envolvidos é astronômico e gera preocupação direta para o funcionalismo público fluminense. De acordo com as investigações, o total aplicado pelo Rioprevidência no Banco Master atinge a cifra de quase R$ 3,7 bilhões. Para se ter uma dimensão do montante, esse valor equivale a aproximadamente dois meses inteiros da folha de pagamento de todos os aposentados e pensionistas do estado do Rio de Janeiro. Inicialmente, o órgão estadual tentou minimizar os números, reconhecendo apenas cerca de R$ 970 milhões em letras financeiras, mas posteriormente admitiu ter resgatado R$ 1,4 bilhão de um fundo gerido pela instituição financeira, sem conseguir explicar o destino ou a situação do restante do capital.
A situação se agravou quando Fernanda assumiu o comando do Itaprevi, em Itaguaí, em junho de 2024. Pouco após sua posse, o instituto municipal destinou cerca de 20% de todo o seu patrimônio — aproximadamente R$ 62 milhões — para letras financeiras do Master. O ponto mais crítico dessas operações é que tais ativos não contam com a proteção do Fundo Garantidor de Crédito (FGC), deixando o dinheiro dos servidores municipais exposto em caso de insolvência da instituição financeira. A PF destaca que essa conduta afronta diretamente o dever de evitar resultados danosos ao patrimônio previdenciário e indica uma continuidade deliberada das práticas observadas na esfera estadual.
Além das movimentações financeiras, a investigação toca no alto escalão da política fluminense. O ex-governador Cláudio Castro também se tornou alvo da operação após a PF identificar o que chama de "vínculo pessoal estreito" entre ele e Daniel Vorcaro. Relatórios apontam que o político teria participado de encontros frequentes com o banqueiro, inclusive no exterior e em ambientes privados, com despesas custeadas pelo empresário. A coincidência temporal entre esses encontros e os aportes bilionários do Rioprevidência é um dos principais pilares que sustentam a tese de corrupção passiva e favorecimento indevido no manuseio da previdência estadual.
Atualmente, o cenário é de intensa disputa jurídica e administrativa. O Itaprevi declarou que a nova gestão está buscando medidas judiciais para reparar o patrimônio e se habilitou na liquidação extrajudicial para tentar reaver os valores. Por outro lado, o Rioprevidência mantém a postura de que os pagamentos de benefícios não correm risco imediato e afirma estar trabalhando na recuperação dos ativos. No entanto, o silêncio sobre a discrepância de valores apresentada pela PF e o descumprimento de prazos para esclarecimentos acendem um alerta sobre a transparência do fundo que garante o sustento de mais de 200 mil famílias no Rio de Janeiro.





