EUA: Classificação de PCC e CV como terroristas pode facilitar ação da CIA no Brasil
Lincoln Gakiya, promotor que investiga o PCC há 20 anos, alerta que mudança de status para 'terrorismo' pode travar investigações e afetar a soberania do país.

A possível classificação de facções brasileiras como terroristas pelos EUA gera alertas no Ministério Público. O promotor Lincoln Gakiya aponta riscos à soberania nacional, dificuldades na troca de informações policiais e impactos econômicos severos para o Brasil.
A recente sinalização do governo dos Estados Unidos em classificar as duas maiores facções criminosas do Brasil, o Primeiro Comando da Capital (PCC) e o Comando Vermelho (CV), como organizações terroristas acendeu um alerta vermelho nas instituições de segurança brasileiras. O promotor Lincoln Gakiya, integrante do Grupo de Atuação Especial de Combate ao Crime Organizado (Gaeco) do Ministério Público de São Paulo e um dos maiores especialistas no combate ao crime organizado no país, manifestou sérias preocupações sobre as consequências dessa mudança de status. Segundo o promotor, que investiga o PCC há duas décadas, a decisão americana pode, ironicamente, prejudicar o combate interno às facções e gerar conflitos de jurisdição e soberania no território nacional.
O cerne da questão reside na mudança de tratamento legal e institucional que os EUA conferem a grupos rotulados como terroristas. Atualmente, as investigações que envolvem o PCC e o CV em solo americano ou em cooperação internacional são conduzidas por agências policiais como o FBI (Federal Bureau of Investigation) e a DEA (Drug Enforcement Administration). Essas instituições mantêm canais de diálogo e troca de informações constantes com a Polícia Federal brasileira e Ministérios Públicos estaduais. Com a nova classificação, o tema deixa de ser tratado sob a ótica da segurança pública e passa a ser uma questão de Defesa e Segurança Nacional, transferindo a responsabilidade das investigações para a CIA (Agência Central de Inteligência). Gakiya alerta que essa transição pode tornar os dados e operações "confidenciais" ou "secretos", fechando as portas para a troca ágil de informações que hoje sustenta grandes operações contra o tráfico internacional.
Além da burocratização e do sigilo excessivo, existe um debate profundo sobre a soberania brasileira. Historicamente, os Estados Unidos adotam doutrinas que permitem ações preventivas ou intervenções secretas fora de suas fronteiras contra alvos classificados como terroristas, muitas vezes sem a autorização do país hospedeiro. O promotor exemplifica o risco citando episódios em que operações militares ou de inteligência foram realizadas no México e na Venezuela sob o pretexto de combater ameaças externas. Para o Brasil, a entrada de agentes da CIA em operações de campo sem a anuência das autoridades locais representaria uma grave violação diplomática e um desafio às Forças Armadas e órgãos federais nacionais.
Outro aspecto sensível mencionado pelo promotor diz respeito ao setor financeiro. A designação de "terrorista" impõe sanções econômicas severas que ultrapassam as fronteiras americanas. Instituições bancárias globais, temendo represálias do Departamento do Tesouro dos EUA, poderiam congelar ativos e bloquear transações de qualquer entidade ou pessoa que possua, ainda que indiretamente, vínculos com as facções. Dado que o sistema financeiro brasileiro está intrinsecamente conectado à rede internacional controlada por Washington, o impacto econômico poderia afetar empresas legítimas e o funcionamento de setores da economia formal que venham a ser alvo de investigações abrangentes e, por vezes, imprecisas pela ótica estrangeira.
Para analistas de relações internacionais e diplomatas, a manobra de classificar facções criminosas como terroristas carece de rigor técnico à luz da lei brasileira. Enquanto grupos terroristas são movidos por ideologia, religião ou motivações políticas, o PCC e o Comando Vermelho operam com base na lógica do lucro e do domínio territorial comercial, caracterizando-se puramente como crime organizado. Especialistas temem que essa mudança seja uma ferramenta política para justificar o uso de força militar na América Latina, seguindo a retórica de combate ao narcotráfico que já gerou tensões na fronteira mexicana. O que se espera agora é um diálogo diplomático intenso para garantir que a cooperação entre Brasília e Washington não seja canibalizada por estratégias de inteligência que ignorem as particularidades e as leis do Brasil.






