El Niño deve se intensificar e trazer chuvas acima da média ao Sul do Brasil
Pesquisas apontam maior risco de cheias no Sul do Brasil com fenonêmo podendo atingir nível 'muito forte'.

Estudo da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) indica que o fenômeno El Niño pode se intensificar, atingindo níveis de forte a muito forte, com chuvas acima da média no Sul do país. Autoridades já planejam ações preventivas para evitar tragédias climáticas.
Especialistas em climatologia e recursos hídricos emitiram um alerta importante para a região Sul do Brasil: o fenômeno El Niño pode apresentar uma intensificação significativa nos próximos meses, alcançando patamares que variam entre as categorias "forte" e "muito forte". De acordo com um estudo recente coordenado pela Universidade Federal do Rio Grande (FURG), por meio do Centro Interinstitucional de Observação e Previsão de Eventos Extremos (Ciex), a tendência é que o regime de precipitações sofra alterações drásticas, resultando em volumes de chuva consideravelmente acima da média histórica para os estados sulistas. O levantamento busca servir como base científica para que órgãos de defesa civil e gestores públicos possam se antecipar a possíveis eventos adversos.
O cenário traçado pelos pesquisadores baseia-se em um cruzamento rigoroso de dados provenientes de centros internacionais de monitoramento climático. A coordenação do Ciex destaca que a análise integrada dessas informações permite a construção de projeções mais robustas, visando quebrar o ciclo de gestão reativa observado em anos anteriores, especialmente após a catástrofe que assolou o Rio Grande do Sul em maio de 2024. O objetivo agora é institucionalizar a prevenção, utilizando a ciência como escudo para proteger populações vulneráveis. A professora Elisa Fernandes, que lidera o centro, enfatiza que a mudança de postura — do agir após o fato para o planejamento antecipado — é fundamental para mitigar perdas humanas e materiais diante de um clima cada vez mais instável.
Historicamente, o El Niño — um componente da Oscilação Sul (ENOS) — caracteriza-se pelo aquecimento anômalo das águas superficiais do Oceano Pacífico Equatorial em pelo menos 0,5°C. No Brasil, essa alteração na temperatura oceânica reflete-se em um padrão geográfico bem definido: enquanto o Norte e o Nordeste enfrentam secas severas, o Sul torna-se um corredor para frentes frias e sistemas de baixa pressão, resultando em tempestades frequentes e volumosas. Um estudo complementar do Instituto de Pesquisas Hidráulicas (IPH) da UFRGS, publicado na revista Communications Earth & Environment, reforça que a probabilidade de cheias na Bacia do Prata pode aumentar em até 160% durante episódios intensos do fenômeno. No entanto, os cientistas fazem uma ressalva importante: o El Niño funciona como um "amplificador" de riscos, mas a ocorrência de um desastre depende de outros fatores locais, como a saturação prévia do solo e o nível dos rios.
Diante das projeções que indicam um El Niño vigoroso para 2026, municípios como Rio Grande já iniciaram movimentações estratégicas. Entre as ações preventivas estão a desobstrução e recuperação de sistemas de drenagem pluvial e a transferência de famílias de áreas de alto risco para novas unidades habitacionais. No bairro Vila da Quinta, por exemplo, mais de 50 moradias estão sendo erguidas especificamente para o reassentamento de cidadãos que vivem em pontos propícios a alagamentos. O planejamento municipal reconhece que a primavera e o verão serão períodos críticos, nos quais os acumulados de chuva devem ser mais expressivos, exigindo uma infraestrutura urbana resiliente e um monitoramento em tempo real das bacias hidrográficas.
Ainda que o alerta de um El Niño "muito forte" gere preocupação legítima, meteorologistas como Ricardo Gotuzzo pedem cautela quanto a previsões milimétricas. Segundo o especialista, embora a tendência de chuva acima da média seja clara, a precisão sobre qual bacia hidrográfica será mais atingida ou em que semana exata o volume será extremo depende de um acompanhamento contínuo a curto prazo. O que se observa, desde 2006, é uma tendência global de que mesmo episódios considerados moderados do fenômeno estão gerando impactos mais severos, impulsionados pelas mudanças climáticas globais. Portanto, a preparação em curso no Sul do país não é apenas uma resposta a um evento isolado, mas uma adaptação necessária a uma nova realidade climática onde os extremos se tornaram a regra, e não a exceção.





