Desafios na emergência: Por que o pronto-atendimento comum pode falhar com idosos
Mudanças fisiológicas fazem com que 40% das emergências geriátricas apresentem sinais diferentes dos tradicionais, exigindo novos protocolos.

Especialista aponta que modelos tradicionais de urgência falham ao não reconhecer sintomas atípicos em pacientes idosos, como infartos sem dor no peito.
O sistema hospitalar tradicional enfrenta dificuldades para acolher adequadamente a população idosa, especialmente pacientes acima de 75 anos. Segundo o geriatra Pedro Kallas Curiati, da Faculdade de Medicina da USP e do Sírio-Libanês, as emergências convencionais são projetadas para atender sintomas clássicos de doenças, ignorando que o envelhecimento altera drasticamente a forma como as enfermidades se manifestam. Cerca de 40% das urgências geriátricas não apresentam os sinais óbvios; um exemplo recorrente é o infarto que ocorre sem a característica dor no peito, o que pode levar a erros de triagem e diagnósticos tardios.
A complexidade do paciente sênior decorre de uma redução na reserva fisiológica do organismo, afetando múltiplos sistemas. O controle térmico instável pode camuflar infecções por falta de febre, enquanto a perda de função renal e hepática altera o processamento de remédios. Além disso, o uso simultâneo de diversos medicamentos e o declínio cognitivo prévio criam uma rede de interações que mascara sintomas reais. Nessas condições, a percepção de dor é frequentemente atenuada, tornando o diagnóstico clínico um desafio que exige uma visão especializada sobre a biologia do envelhecimento.
Para lidar com esse cenário, novas abordagens focam na perda de funcionalidade como o principal termômetro de saúde. No modelo de Pronto Atendimento Geriátrico Especializado (ProAGE), a investigação médica prioriza mudanças súbitas na capacidade de realizar tarefas cotidianas. O ambiente também é adaptado para reduzir o estresse do paciente, utilizando iluminação ajustável, controle de ruídos e ferramentas de auxílio auditivo. O objetivo é transformar a emergência em um espaço que considere a fragilidade física e mental, garantindo que o cuidado seja tão específico quanto a biologia dessa faixa etária.






