Crise Climática: Brasil enfrenta abismo entre percepção de risco e ações de prevenção
Pesquisas mostram que o país gasta dez vezes mais em emergências do que em prevenção, enquanto prejuízos no PIB já superam R$ 110 bilhões anuais.

O Brasil enfrenta um paradoxo climático: embora 90% da população sinta os efeitos de ondas de calor e chuvas extremas, a desinformação e a falta de investimentos em prevenção travam a resiliência do país. Com prejuízos de R$ 110 bilhões por ano no PIB, o desafio agora é transformar o medo em ação política.
A realidade climática do Brasil atravessa um momento de profunda contradição, onde a percepção sensorial dos desastres naturais não tem se traduzido em mudanças efetivas de comportamento ou em prioridades políticas claras. Dados recentes e estudos de impacto econômico revelam que o país ainda patina na construção de uma resiliência frente aos eventos extremos, como o fenômeno "super El Niño", previsto para ser um dos novos marcos críticos no país. Embora a vasta maioria da população afirme sofrer os efeitos diretos do clima em seu cotidiano, existe um abismo entre o reconhecimento do problema e a compreensão de suas causas humanas, o que gera uma perigosa lacuna de desinformação no debate público nacional.
Historicamente, o Brasil tem lidado com as crises ambientais sob uma lógica Reativa em detrimento da Prevenção. Esse cenário ficou tragicamente evidente com as inundações na bacia do Rio Guaíba, no Rio Grande do Sul, em meados de 2024. O desequilíbrio na gestão pública é notável quando se observa que as verbas destinadas a respostas emergenciais — aquelas utilizadas após o desastre já consolidado — chegaram a ser quase dez vezes maiores do que os investimentos feitos em preparação e mitigação de danos. Essa desproporção não apenas sobrecarrega o erário público, mas também expõe a fragilidade das cidades brasileiras, que seguem despreparadas para o chamado "novo normal" climático, marcado por chuvas torrenciais e secas prolongadas de forma intermitente.
No campo econômico, o custo da inércia é alarmante. Estimativas do Centro Internacional Celso Furtado de Políticas para o Desenvolvimento (CICEF) indicam que o Brasil sofre uma perda anual superior a R$ 110 bilhões em seu Produto Interno Bruto (PIB) devido a desastres climáticos. Esse montante representa uma drenagem substancial de recursos que seriam vitais para setores prioritários, como saúde, educação e infraestrutura urbana. Apesar de o Governo Federal ter registrado um leve aumento nos gastos específicos para o clima nos últimos anos, o valor ainda é marginal, correspondendo a apenas 1% do orçamento total da União. Essa subestimação orçamentária reflete a falta de uma agenda climática estruturante que perpasse todos os ministérios e níveis de federação.
Um dos pontos mais intrigantes apontados por pesquisas de opinião é o paradoxo comportamental do cidadão brasileiro. Se, por um lado, cerca de 89% da população vê as mudanças climáticas como uma ameaça real e direta, por outro, quase metade dos eleitores (43%) não alterou nenhum hábito de consumo ou descarte no último ano. Mais grave ainda é a baixa relevância do tema na hora de escolher representantes políticos. Apenas 35% dos brasileiros afirmam já ter selecionado um candidato com base em propostas de defesa ambiental. Esse cenário de desinformação e apatia eleitoral cria um ciclo de baixa cobrança sobre os gestores públicos, que se sentem menos pressionados a apresentar planos de longo prazo para a adaptação das regiões metropolitanas.
Para o futuro imediato, especialmente em anos de ciclos eleitorais, a disseminação de dados que conectem o impacto ambiental ao custo de vida direto — como o preço dos alimentos e da energia — torna-se essencial. A transição de uma agenda de "promessas" para uma de "ação robusta" depende de uma revisão drástica na alocação orçamentária da União, estados e municípios. Sem que a sociedade civil reconheça sua parcela de responsabilidade na escolha de lideranças comprometidas com a mitigação climática, o país continuará a pagar uma conta alta, tanto em termos financeiros quanto em vidas perdidas. O desafio da governança climática é, acima de tudo, um desafio de educação e de mudança de prioridades na gestão da coisa pública.






