Economia

Crime organizado usa fintechs da Faria Lima para lavar bilhões de reais

Investigações revelam como facções criminosas utilizaram 'contas-bolsão' e fundos de investimento para movimentar R$ 26 bilhões em São Paulo.

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Redação 360 Notícia
2 de junho de 2026 às 09:003 min
Crime organizado usa fintechs da Faria Lima para lavar bilhões de reais
Foto: Reprodução
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A Operação Fluxo Oculto revelou que seis fintechs movimentaram R$ 26 bilhões para o crime organizado na Faria Lima. O esquema utilizava empresas de tecnologia financeira e fundos de investimento para lavar dinheiro oriundo da adulteração de combustíveis e outras atividades ilícitas.

O centro financeiro do Brasil, simbolizado pela Avenida Faria Lima em São Paulo, tornou-se palco de uma complexa rede de lavagem de dinheiro operada pelo crime organizado. Recentemente, a Operação Fluxo Oculto, deflagrada pelas autoridades federais e estaduais, trouxe à tona como o Primeiro Comando da Capital (PCC) e outras facções criminosas infiltraram-se no setor de tecnologia financeira. A investigação revelou que seis fintechs e quatro fundos de investimento foram utilizados para movimentar a impressionante cifra de R$ 26 bilhões entre os anos de 2022 e 2025. O esquema não apenas evidencia a sofisticação dos grupos criminosos, mas também expõe vulnerabilidades críticas na regulação de empresas que prestam serviços bancários digitais sem possuir a estrutura de um banco tradicional.

A gênese dessa investigação remonta à Operação Carbono Oculto, que já havia alertado para a entrada do crime organizado na economia formal brasileira. Menos de um ano após a primeira ofensiva, a polícia descobriu que os líderes do esquema simplesmente migraram suas operações de lavagem para novas instituições financeiras de fachada assim que as primeiras foram interditadas. O mecanismo central envolvia o desvio de nafta, um solvente químico importado por empresas "fantasma", que era posteriormente repassado para a adulteração de combustíveis em postos de gasolina. O lucro gerado por essa atividade ilícita era então injetado no sistema financeiro através das fintechs, que funcionavam como verdadeiros "bancos paralelos" para as facções.

De acordo com o Ministério Público de São Paulo (MPSP) e a Receita Federal, as fintechs eram o ponto de entrada ideal devido à menor exigência regulatória comparada aos grandes bancos. Ao contrário das instituições financeiras tradicionais, essas empresas operavam com as chamadas "contas-bolsão", que aglutinam recursos de diversos clientes sem a necessidade de identificação individualizada imediata para o Banco Central. Isso permitia que o dinheiro sujo fosse misturado a recursos legítimos, dificultando o rastreamento por parte dos órgãos de fiscalização. Uma vez dentro do sistema, o capital era pulverizado em fundos de investimento que operavam em camadas: um fundo investindo em outro, sucessivamente, até que o montante pudesse ser utilizado para a compra de bens de luxo, empresas legítimas ou remessas ao exterior.

A utilização de criptoativos também desempenhou um papel relevante, com a movimentação de cerca de R$ 365 milhões identificada em moedas digitais. A facilidade de transferência internacional e o relativo anonimato desses ativos tornam-nos ferramentas atraentes para o crime transnacional. Em resposta, a Receita Federal e o Banco Central implementaram medidas mais severas, como a obrigatoriedade da e-Financeira para empresas de pagamentos e a criação da DeCripto para declarar transações com cripto. No entanto, o secretário da Receita Federal ressaltou que essas tentativas de maior transparência enfrentaram resistência inclusive por meio de campanhas de desinformação, como as notícias falsas que sugeriam a tributação do Pix para confundir a opinião pública e proteger os interesses dos lavadores de dinheiro.

As implicações desse cenário ganharam contornos internacionais com a decisão dos Estados Unidos de classificar facções brasileiras como organizações terroristas. Essa medida coloca o mercado financeiro nacional sob uma lupa ainda mais rigorosa, pois instituições que falharem em seus processos de compliance podem sofrer sanções severas do Departamento do Tesouro americano. Especialistas alertam que empresas brasileiras com relações comerciais nos EUA precisam agora redobrar o cuidado ao identificar seus beneficiários finais. O desafio para o futuro próximo reside na capacidade do Estado em manter a fiscalização ativa e contínua, uma vez que o crime organizado demonstrou ter agilidade para substituir suas estruturas financeiras quase em tempo real, aproveitando-se das brechas digitais do mundo moderno.

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