China encerra restrições e reconhece Brasil como livre de febre aftosa em todo território
Após duas décadas de negociações, Pequim elimina barreiras sanitárias e reconhece todo o território nacional como zona livre da doença.

A China oficializou o reconhecimento do Brasil como território livre de febre aftosa, suspendendo todas as restrições vigentes. A medida, que encerra 20 anos de negociações, abre caminho para a exportação de novos cortes e impulsiona o agronegócio nacional junto ao seu maior parceiro comercial.
A Administração Geral de Alfândegas da China (GACC) anunciou oficialmente nesta terça-feira (2) a suspensão definitiva das restrições sanitárias impostas à carne bovina brasileira relacionadas à febre aftosa. Com a decisão, o gigante asiático passa a reconhecer todo o território brasileiro como zona livre da doença, eliminando barreiras que anteriormente afetavam estados da região Norte e limitavam o potencial de exportação de proteína animal. A medida representa um marco histórico para o agronegócio nacional, uma vez que a China é, isoladamente, o maior comprador de carne do Brasil, absorvendo mais de 50% do volume exportado no último ano.
A conquista diplomática e sanitária é fruto de um esforço que se estende por mais de duas décadas. O processo de convencimento das autoridades chinesas envolveu auditorias rigorosas, modernização dos sistemas de vigilância sanitária e a transição gradual do Brasil para o status de "livre de aftosa sem vacinação" em diversos estados, seguindo as diretrizes da Organização Mundial de Saúde Animal (OMSA). O anúncio ocorre no rastro da visita do ministro das Relações Exteriores, Mauro Vieira, a Pequim, onde participou de um diálogo estratégico que visava, entre outros tópicos, a consolidação das parcerias comerciais no setor de alimentos.
Do ponto de vista econômico, a abertura total do mercado chinês para o território brasileiro abre portas para produtos de maior valor agregado e novos cortes. De acordo com nota conjunta emitida pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) e pelo Ministério das Relações Exteriores (MRE), a nova classificação permitirá o avanço das negociações para a exportação de miúdos e carne com osso, itens que possuem forte demanda no mercado asiático. Somente no primeiro trimestre deste ano, a China desembolsou cerca de US$ 3 bilhões em compras de carne brasileira, evidenciando a dependência mútua entre o maior exportador global de proteína e o maior importador do planeta.
A decisão chinesa surge em um momento em que a própria China enfrenta desafios internos em relação à sanidade animal. No final de março, focos de febre aftosa foram registrados na província de Gansu e na região de Xinjiang, afetando milhares de bovinos. Esse cenário doméstico elevou o rigor das autoridades chinesas com controles de fronteira e desinfecção, o que torna o reconhecimento do status sanitário brasileiro ainda mais significativo. A confiança depositada no sistema de monitoramento do Brasil ocorre após pedidos insistentes do governo brasileiro para ampliar cotas e diversificar a oferta de carne bovina e suína para os consumidores chineses.
Para o produtor rural brasileiro, especialmente das regiões que ainda sofriam com restrições localizadas, o anúncio traz previsibilidade e valorização do rebanho. A expectativa agora gira em torno da habilitação de novas plantas frigoríficas que estavam fora do radar de exportação para a China devido à localização geográfica. Especialistas do setor acreditam que o Brasil poderá consolidar sua liderança global e usar este novo status como "selo de qualidade" para abrir outros mercados exigentes, como o Japão e a Coreia do Sul, que historicamente impõem barreiras rigorosas contra países onde a aftosa ainda é uma preocupação latente ou onde o reconhecimento territorial não é pleno.






