Caso Sapé: Justiça retoma audiência de acusado de mandar matar casal de idosos
Ailton Nascimento, acusado de ser o mentor do crime e tentar matar o filho autista das vítimas, presta depoimento pela primeira vez em SAPÉ.

Justiça retoma depoimentos no caso do casal de idosos Nelson e Célia Honorato, mortos por um falso corretor em Sapé. O mentor do crime, Ailton Nascimento, é interrogado nesta quarta-feira (27) em audiência que apura a morte das vítimas e a tentativa de assassinato do filho autista do casal.
O Poder Judiciário da Paraíba retomou, nesta quarta-feira (27), a audiência de instrução e julgamento de um caso que chocou o estado pela frieza e planejamento: o assassinato do casal de idosos Nelson e Célia Honorato, em Sapé. O principal foco da sessão, realizada na 1ª Vara Cível da Comarca local, é o depoimento de Ailton Nascimento, apontado pelas investigações da Polícia Civil como o mentor intelectual e executor direto dos crimes. Esta fase processual é considerada decisiva, pois marca a primeira vez que os réus são interrogados formalmente em juízo após a conclusão das investigações preliminares, permitindo o confronto de versões entre acusação e defesa.
A retomada ocorre após uma longa jornada de oitivas iniciada na terça-feira (26). Durante cerca de sete horas ininterruptas de trabalho, a Justiça ouviu 25 pessoas, entre testemunhas de acusação e informantes, que ajudaram a reconstruir os passos das vítimas e dos suspeitos nos dias que antecederam o crime. Para esta quarta-feira, a pauta inclui o depoimento de outras 11 testemunhas remanescentes antes que os réus possam, enfim, apresentar suas defesas. O caso tramita sob forte expectativa social, dado que as vítimas eram conhecidas na região e o crime envolveu o uso de identidade falsa para ganhar a confiança de pessoas vulneráveis.
De acordo com os autos do processo e o inquérito policial, a tragédia começou a ser desenhada quando Ailton Nascimento se apresentou ao casal como corretor de imóveis. Nelson e Célia planejavam vender sua residência em Sapé para se mudarem para a capital, João Pessoa. Usando de suposto profissionalismo, o acusado obteve uma procuração das vítimas, documento que lhe dava plenos poderes para negociar o imóvel. No entanto, o objetivo real era a apropriação do bem. No dia 18 de agosto, o "corretor" foi à casa das vítimas acompanhado de um jovem de 19 anos, apresentado como um interessado em alugar uma dependência nos fundos do terreno. No local, Nelson foi brutalmente golpeado com um martelo até a morte. Célia, que estava fora em uma consulta médica, foi assassinada da mesma forma assim que retornou, sendo atraída para os fundos da propriedade sob o pretexto de conversar com o suposto inquilino.
As investigações revelam ainda um componente de extrema crueldade em relação ao filho do casal, um jovem autista de 27 anos. Enquanto os pais eram mortos, o rapaz foi mantido trancado em um quarto. Dias depois, visando eliminar qualquer testemunha e herdeiro do imóvel, o mentor do crime teria contratado um terceiro homem para dar fim à vida do jovem. O sobrevivente foi levado a uma área de mata sob a promessa de que veria os pais no hospital, mas foi atacado com marteladas. Ele sobreviveu ao ataque ao fingir que estava morto, sendo resgatado posteriormente pela Polícia Militar enquanto vagava ensanguentado por uma estrada rural. Este relato foi fundamental para desvendar o paradeiro dos idosos, cujos corpos foram encontrados semanas depois, envoltos em cobertores e enterrados em uma cova rasa.
As implicações do crime estenderam-se para além da esfera criminal, atingindo o setor profissional. O Conselho Regional dos Corretores de Imóveis da Paraíba (Creci-PB) confirmou que Ailton Nascimento não possuía qualquer registro profissional, exercendo a atividade de forma ilegal para facilitar o acesso às vítimas. Além do mentor, outras cinco pessoas foram presas sob suspeita de participação na execução, ocultação de cadáver e tentativa de homicídio. A audiência atual serve para consolidar as provas que determinarão se os acusados irão a júri popular. O caso levanta um alerta importante sobre a segurança em transações imobiliárias e a verificação de credenciais de profissionais, especialmente quando envolvem idosos em processos de venda de patrimônio familiar.




