Braskem entra com pedido de recuperação extrajudicial após crise geológica em Maceió
Petroquímica busca reestruturar dívidas bilionárias após desastre socioambiental que deslocou milhares de moradores em Alagoas.


A Braskem protocolou pedido de recuperação extrajudicial para reestruturar dívidas bilionárias decorrentes do desastre da mineração em Maceió, que afetou 60 mil pessoas.
A petroquímica Braskem anunciou oficialmente, nesta segunda-feira (24), o protocolo de um pedido de recuperação extrajudicial com o objetivo de renegociar uma dívida bilionária que pressiona suas operações. O movimento financeiro ocorre em um cenário de forte desgaste institucional e jurídico, motivado diretamente pelo desastre geológico causado pela extração de sal-gema em Maceió, Alagoas. O pedido de reestruturação é visto pelo mercado como uma tentativa de dar fôlego ao caixa da companhia, que enfrenta indenizações massivas e custos de recuperação ambiental que superam a casa dos bilhões de reais.
O contexto da crise remonta ao ano de 2018, quando fortes tremores de terra foram sentidos em diversos bairros da capital alagoana. O fenômeno, inicialmente cercado de mistério, revelou-se posteriormente como a consequência direta de décadas de mineração desenfreada em áreas urbanas. A extração do mineral, iniciada ainda na década de 1970, criou cavidades subterrâneas que perderam a estabilidade, resultando no afundamento progressivo do solo. Esse processo de subsidência comprometeu a infraestrutura de cinco bairros inteiros — Pinheiro, Mutange, Bebedouro, Bom Parto e parte do Farol —, transformando áreas residenciais e comerciais vibrantes em verdadeiras "cidades fantasmas".
Os detalhes do impacto social são devastadores: estima-se que cerca de 60 mil pessoas foram forçadas a abandonar suas residências e estabelecimentos comerciais devido ao risco iminente de colapso das edificações. Milhares de imóveis apresentaram rachaduras estruturais profundas e crateras se abriram em vias públicas. Em dezembro de 2023, o caso ganhou contornos ainda mais críticos com o rompimento da mina de número 18, localizada na região do Mutange, que sofreu um colapso parcial sob as águas da Lagoa Mundaú. O episódio reafirmou a gravidade da instabilidade do terreno e a necessidade de monitoramento constante por parte da Defesa Civil e de órgãos ambientais federais.
As implicações judiciais acompanham a deterioração financeira da empresa. Recentemente, a Justiça Federal aceitou uma denúncia que coloca ex-dirigentes e técnicos da Braskem sob investigação direta. O Ministério Público Federal apura as responsabilidades individuais e corporativas no que é considerado um dos maiores desastres socioambientais urbanos do mundo. Além das ações criminais e cíveis, a empresa enfrenta uma pressão diplomática e econômica, uma vez que o caso Maceió tornou-se um exemplo negativo de governança corporativa e responsabilidade socioambiental (ESG), afastando investidores e gerando sanções administrativas pesadas.
Os próximos passos da Braskem envolvem agora a aprovação do plano de recuperação extrajudicial pelos seus credores. Caso o acordo seja homologado, a empresa espera alongar os prazos de pagamento de suas dívidas para manter a continuidade das operações. No entanto, o processo de reparação em Maceió continua sendo o maior desafio: o monitoramento das minas deve prosseguir por décadas, e o processo de indenização das famílias afetadas e da prefeitura local ainda possui frentes abertas. A recuperação da área degradada e a destinação do solo afetado permanecem como incógnitas, enquanto a capital alagoana ainda tenta cicatrizar as marcas deixadas pela atividade mineradora no coração de sua malha urbana.
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Sobre este conteúdo
Autor: Antonio Marcos de Souza
Publicado: 24 de agosto de 2026 às 18:00
Atualizado: 24 de agosto de 2026 às 19:44
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