Entre Palavras

Por causa dos outros, nós, “árvores”

Porque nós não nascemos para caber no espaço que os outros escolheram para nós. Nascemos para crescer.

Antonio Marcos de Souza
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Antonio Marcos de Souza
Publicado em 23 de agosto de 2026 às 01:563 min
Por causa dos outros, nós, “árvores”
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Antonio Marcos de Souza

Por causa dos outros, nós, “árvores”, deixamos de mostrar nossas flores bonitas durante as nossas primaveras. Deixamos de ter o balé das borboletas em nossas flores e de receber os beijos dos beija-flores. Não conseguimos dar frutos, nem espalhar sementes ou nascer em novos lugares. Ficamos presos em uma vida sem vida, sem cor e sem sabor. Por causa dos outros, nós, “árvores”...

Por causa dos outros, nós, “árvores”, não conseguimos crescer. Doía muito cada corte e cada poda. Eu via tantas folhas e brotos que nunca cumpririam seu papel e, com vontade de chorar, olhava para o tanto que eu deixei de crescer. Quando olhava para outras pessoas, via como elas eram grandes e cheias de frutos. Mas nós, “árvores”, fomos feitos só para enfeitar um cantinho.

Por muito tempo, a gente achou que aquele canto era o nosso lugar. Achamos que nascer para ficar parado era o nosso destino, que ter raízes profundas significava que ficaríamos presos onde nos colocaram. A gente confundiu cuidado com controle, proteção com prisão e silêncio com paz. Com o tempo, fomos esquecendo que árvores foram feitas para crescer para o céu, para aguentar o vento, a chuva e o sol, para perder folhas e ainda assim renascer.

Quantas vezes deixamos que outras pessoas decidissem o tamanho dos nossos galhos? Quantas vezes aceitamos que alguém dissesse até onde poderíamos ir? Quantas primaveras nós deixamos passar por medo de incomodar ou de crescer mais do que os outros esperavam? Talvez o que mais doeu não tenha sido a poda. Talvez tenha sido acreditar que a gente não conseguiria crescer de novo.

Mas uma árvore, quando ganha um pouco de espaço, não pede desculpas por crescer. Ela simplesmente cresce. Ela quebra o chão, estica os galhos e procura a luz. Mesmo com as marcas, ela cura os cortes e segue em frente. E quando a primavera chega, a árvore não pergunta se pode florescer. A árvore apenas floresce.

Foi aí que eu entendi que ainda tinha vida em mim. Tinha sementes guardadas, brotos escondidos e raízes que ninguém conseguiu tirar. Tinha uma força silenciosa esperando uma chance para respirar de novo. E eu percebi que não precisava ser a árvore perfeita ou a mais alta. Eu só precisava ser livre para ser quem eu sempre fui.

Hoje, eu não quero mais viver só para enfeitar. Eu quero florescer, mesmo que algumas flores caiam. Quero dar frutos, mesmo que nem todos percebam. Quero espalhar sementes, ocupar novos lugares e dar sombra para quem precisar descansar. Porque nós não nascemos para caber no espaço que os outros escolheram para nós.

Nascemos para crescer.

E talvez a nossa maior revolução seja essa: permitir que a gente viva a vida que disseram que não merecíamos. No fim das contas, uma árvore não deixa de ser árvore só porque tentaram podá-la. Ela só espera o tempo certo para brotar de novo.

E eu estou brotando.

Depois de tantas podas e tantas primaveras perdidas, decidi que, de agora em diante, ninguém mais vai escolher o tamanho dos meus galhos, a quantidade das minhas flores ou para onde meus frutos vão. Minhas raízes vão conhecer a terra, meus galhos vão buscar o céu e minhas flores vão mostrar que, apesar de tudo, eu sobrevivi.

Por mim e por nós, “árvores”, que um dia não pudemos florescer, chegou a hora de reflorescer. Chegou a hora de viver.

Antonio Marcos de Souza

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Autor: Antonio Marcos de Souza

Publicado: 23 de agosto de 2026 às 01:56

Atualizado: 22 de agosto de 2026 às 18:00

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