Um milhão de pequenas coisas
Me peguei pensando, como tantas outras vezes em que os pensamentos vagueiam. Era uma manhã de domingo, na casa dos meus avós, período em que eu já morava com el

Me peguei pensando, como tantas outras vezes em que os pensamentos vagueiam. Era uma manhã de domingo, na casa dos meus avós, período em que eu já morava com eles.
Me peguei pensando, como tantas outras vezes em que os pensamentos vagueiam. Era uma manhã de domingo, na casa dos meus avós, período em que eu já morava com eles. Era tradição encerar aquela sala com piso de cimento queimado vermelho. Mas não era um vermelho qualquer — era um tom vivo, com um brilho que faria inveja a qualquer porcelanato moderno.
Todos os domingos pela manhã, pegávamos a pasta vermelha e, de joelhos no chão, começávamos o ritual de encerar com as mãos. Passávamos horas naquele trabalho, até que o piso ficasse reluzente. Minha avó se orgulhava imensamente ao ver aquele chão brilhando.
No centro da sala havia um conjunto de sofás de dois e três lugares e, ao lado, um jarro preto cintilante, com textura que lembrava escamas de peixe. Dentro, rosas artificiais. Era um jarro bonito e marcante. Em um desses dias, meu irmão Daniel e eu, entre brincadeiras e tarefas, acabamos derrubando o jarro. O susto foi como um calafrio na espinha: sabíamos que, se nossa avó descobrisse, certamente levaríamos uma surra.
Naquela época, chamada por muitos de “geração de ferro”, tínhamos respeito — e até medo — de decepcionar pais e avós. Tomar uma surra não nos deixava traumatizados, nem gerava marcas emocionais profundas a ponto de exigirem longas sessões de terapia. Talvez porque naquela época nem houvesse tantos psicólogos quanto há hoje.
Hoje vivemos numa geração em que tudo se ofende, tudo se magoa, tudo se quebra. E, apesar de tudo, sou grato por ter crescido naquela época. Meus irmãos e eu somos sobreviventes disso — e, sim, agradecidos por isso também.
Voltando ao jarro... Tivemos a ideia de colar os pedaços — inclusive os menores fragmentos — com cola. E, por incrível que pareça, meus avós nunca comentaram nada. Talvez tenham notado as ranhuras visíveis. Talvez tenham preferido o silêncio ao invés da repreensão. E esse gesto também nos ensinou muito.
São tantas memórias, mil e uma coisas que guardo com carinho e saudade. Uma riqueza de experiências que a geração de hoje talvez não conheça. Vivíamos de forma simples, mas éramos imensamente afortunados e felizes. Aqueles tempos ficaram para trás, mas permanecem vivos no coração, intocados na memória, onde tudo ainda existe — como um relicário do que fomos e do que sempre seremos.
Antonio Marcos de Souza






