Trump acusa Brasil de trabalho forçado na pecuária, mas isenta carne de tarifa
Apesar de críticas severas ao uso de mão de obra escrava no campo, Washington manteve a proteína nacional fora da nova sobretaxa de 12,5%.

O governo Trump acusa o Brasil de utilizar trabalho forçado na pecuária para ganhar vantagem competitiva. Apesar da grave acusação e da criação de novas tarifas de 12,5% para produtos ligados à prática, a carne bovina brasileira foi mantida temporariamente isenta das novas taxas.
O governo dos Estados Unidos, sob a gestão de Donald Trump, elevou o tom contra o agronegócio brasileiro ao publicar um relatório oficial que associa diretamente a pecuária do Brasil à prática de trabalho forçado. A acusação é o pilar central de uma nova proposta comercial anunciada nesta terça-feira, que visa aplicar uma tarifa adicional de 12,5% sobre produtos oriundos de países que não combatem de forma eficaz a entrada de mercadorias produzidas sob condições análogas à escravidão. Embora o documento cite o Brasil como um dos principais infratores nesse quesito, em um movimento tático e contraditório, a carne bovina brasileira foi incluída na lista de itens que, por ora, permanecerão isentos dessa nova sobretaxa, apesar das duras críticas tecidas ao setor.
A investigação conduzida pelas autoridades americanas abrange um total de 60 nações e concluiu que o Brasil, ao lado de gigantes como a China, falha em implementar mecanismos robustos de fiscalização e punição para o trabalho escravo em suas cadeias produtivas. O relatório destaca um capítulo inteiro para destrinchar a relação entre o crescimento da pecuária nacional e as violações de direitos humanos. O argumento central de Washington é que o uso de mão de obra precarizada oferece uma vantagem competitiva desleal, permitindo कि o Brasil exporte volumes massivos a preços significativamente inferiores aos praticados pelos produtores americanos. O documento afirma categoricamente que a presença dessa prática no território brasileiro está "amplamente documentada" e sugere que a conivência de parceiros comerciais, especialmente a China, distorce o mercado global.
Os dados apresentados pelos Estados Unidos ilustram uma perda de espaço acentuada para o produto brasileiro no cenário internacional, particularmente no mercado chinês, que é o maior comprador de carne do planeta. De acordo com o relatório, entre 2015 e 2025, o volume das exportações de carne bovina congelada do Brasil para as economias analisadas teve um salto de quase 100%, enquanto o crescimento dos EUA foi de apenas 21% no mesmo período. A discrepância de preços é outro ponto de atrito: em 2025, o valor médio da carne brasileira importada pela China foi de US$ 2,40 por unidade, o que representa um custo 41% menor do que os US$ 4,20 cobrados pelo produto estadunidense. Para o governo Trump, essa diferença não é fruto apenas de eficiência produtiva, mas sim de uma estrutura que tolera custos laborais criminosos.
Para o leitor brasileiro e para o setor produtivo nacional, as implicações dessa acusação são gravíssimas, pois tocam em um ponto sensível da imagem internacional do país: o cumprimento de critérios ESG (Ambientais, Sociais e de Governança). Embora a carne bovina tenha escapado da tarifa de 12,5% nesta primeira fase, o relatório funciona como uma "lista suja" institucionalizada pelos EUA, o que pode servir de base para sanções futuras ou para que outros países e blocos econômicos, como a União Europeia, intensifiquem as restrições sobre a proteína brasileira. O documento admite que fatores internos dos EUA, como o tamanho do rebanho americano, influenciaram a dinâmica de mercado, mas insiste que, se houvesse uma proibição global rigorosa contra o trabalho forçado, a competitividade americana estaria em um patamar superior.
O desdobramento desse embate sinaliza um endurecimento das barreiras não tarifárias como ferramenta de política externa do governo Trump. Ao isentar a carne brasileira no curto prazo, os EUA parecem querer evitar um choque imediato na inflação interna de alimentos, mas ao mesmo tempo pavimentam o caminho jurídico e político para pressões diplomáticas bilaterais. O setor pecuário brasileiro, que já enfrenta desafios com a rastreabilidade ambiental devido ao desmatamento, agora se vê forçado a responder a questionamentos éticos sobre sua gestão de pessoal. Espera-se que entidades de classe e o governo brasileiro apresentem contestações formais aos dados apresentados, buscando dissociar a imagem da proteína nacional das acusações de Washington, em uma tentativa de evitar que a isenção tarifária atual seja revogada em futuras revisões periódicas do Departamento de Comércio americano.






