Trio À Vontade recebe maior cachê do São João em Pernambuco; gastos superam R$ 512 milhões
Painel de transparência do Ministério Público detalha investimentos em shows juninos; Caruaru segue liderando volume de contratações no estado.

O Ministério Público de Pernambuco revelou o ranking dos maiores cachês do São João, com o trio À Vontade liderando as cifras em quase R$ 1 milhão por show. O painel de transparência monitora mais de R$ 512 milhões em investimentos públicos na maior festa do estado.
As celebrações juninas em Pernambuco, conhecidas por sua magnitude cultural e impacto econômico, encontram-se sob a rigorosa vigilância do Ministério Público de Pernambuco (MPPE). Através do Painel de Transparência dos Festejos Juninos, ferramenta que chega ao seu terceiro ano de operação, foi revelado que o trio "À Vontade" — composto pelos artistas Raí Saia Rodada, Luan Estilizado e Zezo Potiguar — detém, até o momento, o maior cachê registrado para o ciclo festivo atual. A apresentação do grupo em Caruaru, programada para esta sexta-feira (5), custou aos cofres públicos a cifra de R$ 990 mil, consolidando o projeto como um dos mais rentáveis do cenário artístico nordestino na atualidade.
O monitoramento desses gastos é fundamental em um estado onde o São João não é apenas uma festa, mas uma indústria que movimenta centenas de milhões de reais. De acordo com os dados consolidados pelo MPPE, somando as festividades de 2024 e o que já foi planejado para 2025, o investimento total dos municípios pernambucanos ultrapassa a marca de R$ 512 milhões. Até a última atualização, 22 prefeituras já enviaram seus dados ao painel, revelando um planejamento que já atinge até o ano de 2026, com mais de R$ 22,6 milhões empenhados antecipadamente. Esse sistema de controle foi criado para evitar distorções de mercado e garantir que o dinheiro público seja gerido com responsabilidade em relação a outras demandas sociais fundamentais.
Um dos pontos de maior atenção para os órgãos de controle é o crescimento exponencial dos gastos em determinadas localidades. Em Goiana, na Zona da Mata Norte, o investimento em contratações artísticas saltou de R$ 8 milhões para quase R$ 18 milhões em apenas doze meses. No Agreste, a cidade de Surubim também apresentou uma escalada drástica, elevando seu orçamento de R$ 1,5 milhão para aproximadamente R$ 10 milhões. Caruaru, autointitulada a "Capital do Forró", permanece no topo da lista de volume total investido, com mais de R$ 54 milhões em shows no último biênio. O cenário de altas cifras também destaca discrepâncias curiosas: enquanto o trio "À Vontade" beira o milhão de reais, apresentações de artistas locais como Joãozinho do Acordeon chegam a custar R$ 2,5 mil, evidenciando o abismo entre o mercado das celebridades "mainstream" e os forrozeiros de base.
O promotor de Justiça Hodir de Melo, que coordena o Centro de Apoio Operacional (CAO) de Defesa do Patrimônio Público, ressalta que o objetivo principal do painel é permitir que o cidadão seja o fiscal da própria cidade. Para 2026, a novidade é a inclusão de uma ferramenta comparativa que permite observar se o aumento do cachê de um artista foi compatível com a inflação oficial ou se houve um reajuste desproporcional. O MPPE orienta que seus promotores em cada comarca fiquem especialmente atentos a contratos que superem os R$ 600 mil ou que apresentem variações súbitas sem justificativa técnica plausível, visando proteger orçamentos que muitas vezes deveriam ser destinados à saúde e educação.
O prazo final para que as prefeituras enviem suas informações de gastos ao portal termina no dia 3 de julho. Aquelas que cumprem o dever de transparência voluntária recebem um selo de reconhecimento, o que serve como uma garantia de boa fé administrativa perante a população e os tribunais de contas. Para o leitor e contribuinte, o acesso ao portal permite filtrar os gastos por município, por artista e até pela origem da verba (municipal, estadual ou federal). Esse nível de detalhamento coloca Pernambuco na vanguarda do controle externo de festividades populares, transformando o "Painel do São João" em uma referência nacional de como alinhar o fomento cultural com o rigor ético no uso do erário.






