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"A incrível geração de fotos sorridentes e travesseiros encharcados"

Não é constrangimento nenhum ter uma vida comum, simples, pé no chão, temperada com cebola e alho num fundo de panela sem sofisticação, mas muito singelo.

16 de fevereiro de 2026 às 14:013 min
"A incrível geração de fotos sorridentes e travesseiros encharcados"
Foto: Reprodução
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Não é constrangimento nenhum ter uma vida comum, simples, pé no chão, temperada com cebola e alho num fundo de panela sem sofisticação, mas muito singelo.

Nas últimas semanas, nos deparamos com dois casos de suicídio entre jovens de um colégio tradicional de São Paulo, o Colégio Bandeirantes. As mortes, ocorridas num intervalo de quinze dias, tomaram conta das redes sociais e assustaram pais e estudantes em todo o Brasil. Paralelamente, surgiram outras notícias semelhantes, como as do Colégio Agostiniano São José e do Colégio Vértice.

É complicado tentar compreender essas tragédias. Mas é evidente que vivemos tempos difíceis. Tempos em que, além da necessidade inerente à juventude de encontrar uma identidade que a faça se sentir incluída e aceita, há também a corrida pelo melhor status nas redes sociais. Essa geração, ainda em formação, compara seu dia a dia — modesto, real e perfeitamente normal — com demonstrações exageradas de felicidade editada e filtrada. É exigido um bem-estar irreal, inalcançável e plastificado.

A insatisfação com a realidade e a competitividade têm gerado uma geração frustrada e descontente consigo mesma. Antigamente, era comum se espelhar em artistas e tentar reproduzir modismos e trejeitos. Mas era fácil distinguir o mundo real daquele glamourizado. Hoje, o "teatro da existência" invadiu a realidade, e sem maturidade para separar fantasia de possibilidade, corremos o risco de nos cobrar objetivos inconcebíveis — o que pode levar a uma vida de mentiras ou dor.

Viver uma vida de mentiras é não querer entrar em contato com as próprias emoções, com os medos, dúvidas, solidão e tédio. É querer parecer o que não é para impressionar quem não importa. É maquiar a realidade para ser aceito, sentir-se cobrado pela exigência da felicidade, copiar o que não gosta para se sentir incluído, chorar escondido por não se sentir compreendido.

Não há constrangimento em ter uma vida comum, simples, pé no chão, temperada com cebola e alho num fundo de panela sem sofisticação, mas cheio de afeto. Não é vergonha reconhecer que o dia a dia é modesto e trivial, e que o requinte nos visita de tempos em tempos, dando uma variada no nosso vestidinho de chita ou propondo uma gravata ou salto agulha ocasional.

É ilusão acreditar que a felicidade é mais constante para quem tem um feed repleto de viagens, convites e likes. É engano imaginar que o valor de alguém pode ser medido pelo termômetro das curtidas.

Temos nos distanciado de nossos filhos ao permitir que eles acreditem que as histórias das telas são mais autênticas que a realidade. Temos ajudado a construir uma geração despreparada para o mundo real ao autorizar o fascínio por vidas editadas, onde as dificuldades são excluídas, criando a fantasia de que ter problemas não é normal.

Ninguém é cem por cento bem resolvido. Todos enfrentamos batalhas, monstros e fantasmas. Acreditar que é possível viver sem tédio, contrariedade ou insatisfação gera ainda mais descontentamento e indivíduos incapazes de lidar com frustrações.

Estamos diante de uma incrível "geração de fotos sorridentes e travesseiros encharcados". O que é publicado nas redes nem sempre condiz com o que se carrega no coração. Por isso, devemos ser cuidadosos. Não colecionar expectativas irreais, nem viver acreditando que nossa vida está aquém só porque não conseguimos manter um estado permanente de contentamento.

Precisamos preparar nossos filhos para os sustos, quedas e frustrações. Ajudá-los a entender que a vida é um presente precioso, frágil e imprevisível, e que a felicidade é um modo de se relacionar com a existência. Ampará-los na dor, sem iludi-los. Mostrar que viver é complicado, que nada cai do céu, e que é preciso luta para ser realizado e feliz.

Para isso, nossos filhos precisam de pais verdadeiros, que olhem nos olhos e não finjam. Que compartilhem alegrias e dificuldades. Que mostrem os sacrifícios feitos pela família e o valor das pequenas conquistas. E que assim, possam compreender que crescer é um processo contínuo, feito de limitações e imperfeições — e que é possível fazer o melhor com o pouco que se tem.

O título desse texto foi inspirado na frase de Ludmila Clio: "Somos uma bela geração de fotos sorridentes e de travesseiros encharcados."

Texto gentilmente autorizado para reprodução.

Antonio Marcos de Souza. 20/10/2023 às 07h52min.

#geração#sorrdente

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