Ponte milionária é interditada no Acre após dois anos de uso por risco de queda
Estrutura que custou R$ 36 milhões aos cofres públicos apresenta riscos de desabamento devido à erosão nas margens do Rio Iaco.

Inaugurada há apenas dois anos e meio, a ponte Frei Paolino Baldassari, em Sena Madureira (AC), foi interditada devido à erosão fluvial. A obra, que custou R$ 36 milhões, corre riscos estruturais após o fenômeno de "terras caídas" comprometer as margens do Rio Iaco.
A segurança viária e a infraestrutura do interior do Acre sofreram um duro golpe nesta quinta-feira (4), com a interdição total da ponte Frei Paolino Baldassari, localizada no município de Sena Madureira. A estrutura, que representa um investimento público de R$ 36 milhões, foi fechada para o tráfego pouco mais de dois anos após sua inauguração oficial. A decisão foi tomada após o Corpo de Bombeiros Militar identificar riscos severos causados por um processo erosivo acentuado nas margens do Rio Iaco, colocando em xeque a estabilidade de uma obra que deveria ser a solução definitiva para a mobilidade local.
O problema central reside no fenômeno geológico conhecido na região amazônica como "terras caídas". Esse processo consiste no colapso repentino das margens dos rios, geralmente provocado pela força das águas que solapam a base dos barrancos, causando desmoronamentos de grandes proporções. No caso da ponte em Sena Madureira, o avanço da erosão comprometeu o solo onde a cabeceira da estrutura está fixada. Apesar de a obra ter sido entregue com grande entusiasmo em meados de 2022, a natureza dinâmica dos rios amazônicos parece ter sido subestimada ou ter agido com velocidade superior à prevista nos estudos de engenharia originais, forçando o Departamento de Estradas de Rodagem, Infraestrutura Hidroviária e Aeroportuária (Deracre) a agir preventivamente.
A situação é agravada pelo fato de que esta é a segunda interdição logística de grande impacto na região em curto espaço de tempo. Na sexta-feira (5), outra estrutura vital, a ponte sobre o Rio Caeté na rodovia BR-364 — principal artéria que conecta Sena Madureira ao Vale do Juruá —, também passará por restrições operacionais devido à instabilidade do solo percebida pelo Departamento Nacional de Infraestrutura de Transportes (Dnit). Para os moradores e transportadores de carga, o cenário é de incerteza, uma vez que a ponte Frei Paolino Baldassari é um elo fundamental entre o centro urbano e diversos distritos rurais, possuindo uma extensão de 232 metros que custou anos de planejamento e execução.
Atualmente, o Deracre informou que o tráfego não foi totalmente isolado apenas graças ao uso de um pontilhão metálico secundário, mas a interdição da estrutura principal gera gargalos e preocupações sobre o tempo de recuperação. A Construtora Cidade Ltda., empresa responsável pela execução do projeto de R$ 36 milhões, foi formalmente notificada pelo governo estadual para realizar uma perícia técnica aprofundada. O objetivo é determinar se houve falha na execução da contenção das margens ou se o fenômeno das "terras caídas" superou os parâmetros de projeto. Vale ressaltar que vistorias realizadas no ano passado não haviam apontado fissuras estruturais, o que indica que o processo de degradação do terreno se acelerou drasticamente nos últimos meses.
Para o leitor brasileiro, especialmente o que reside fora da região Norte, o caso ilustra os desafios hercúleos de manter a infraestrutura na Amazônia. A combinação de solos altamente instáveis, regimes de chuvas intensos e a força dos rios exige manutenções constantes e projetos que considerem as particularidades locais. A ponte homenageia o Frei Paolino Baldassari, uma figura histórica que dedicou décadas de vida à assistência aos ribeirinhos e ao desenvolvimento social do Acre. Agora, a comunidade aguarda que o governo e a empreiteira apresentem um plano de reparo que não apenas reabra a via, mas garanta que o recurso público de dezenas de milhões de reais não seja literalmente "engolido" pela força do rio Iaco nos próximos anos.





