Pobreza de refrigeração: quando o calor extremo vira uma barreira de classe social
Entenda como a falta de infraestrutura e a desigualdade social criam abismos térmicos que colocam em risco milhões de vidas em favelas e periferias.

A pobreza de refrigeração afeta milhões de brasileiros e 600 milhões de pessoas globalmente, revelando como a falta de infraestrutura e áreas verdes torna o calor extremo mortal. O fenômeno vai além do ar-condicionado, expondo as falhas do planejamento urbano e da desigualdade social nas cidades.
O conceito de "pobreza de refrigeração" tem emergido como um dos desafios sociopolíticos mais urgentes do século 21, à medida que as mudanças climáticas intensificam as ondas de calor em escala global. Diferente da visão simplista que atrela o alívio térmico apenas à capacidade individual de adquirir um aparelho de ar-condicionado, pesquisadores definem o fenômeno como uma falha sistêmica. Trata-se da ausência de infraestrutura adequada, planejamento urbano inclusivo e políticas públicas que permitam ao cidadão, independentemente de sua renda, sobreviver e manter o bem-estar diante de temperaturas recordes. No Brasil, essa realidade é palpável em cidades como o Rio de Janeiro, onde o abismo térmico entre bairros nobres e favelas expõe a face mais cruel da desigualdade social.
Historicamente, o desenvolvimento das grandes metrópoles negligenciou a necessidade de preservação de áreas verdes em zonas periféricas, priorizando o adensamento habitacional e o uso de materiais de baixo custo, como o zinco e o concreto, que retêm calor por longos períodos. O contraste é nítido: enquanto moradores de bairros litorâneos contam com a brisa marinha e ruas arborizadas, as populações em comunidades como Vidigal ou Rocinha enfrentam "ilhas de calor" persistentes. Nessas áreas, a falta de ventilação cruzada nas moradias e a ausência de espaços públicos com sombra transformam o ambiente doméstico em um local de risco, onde as paredes irradiam altas temperaturas mesmo horas após o pôr do sol, impedindo o descanso necessário para a recuperação física do corpo.
Um estudo recente abrangendo 28 países em desenvolvimento revela que cerca de 600 milhões de pessoas vivem sob níveis severos de pobreza sistêmica de refrigeração. A pesquisa destaca que a vulnerabilidade não é apenas econômica, mas infraestrutural. Países como a Indonésia e Bangladesh, que possuem climas similares de calor úmido, apresentam resultados distintos em saúde pública devido à qualidade das redes de apoio e do saneamento. No Brasil, a situação é agravada pelo custo da energia elétrica. O uso do ar-condicionado, para os poucos que conseguem adquiri-lo, pode elevar as contas domésticas em mais de 30%, pressionando orçamentos já limitados e criando um ciclo de dependência energética que, paradoxalmente, contribui para as mudanças climáticas através do alto consumo e das emissões de calor residual dos próprios aparelhos.
As implicações da falta de refrigeração adequada estendem-se para além do desconforto, atingindo grupos específicos de forma desproporcional. Para trabalhadores informais, como vendedores ambulantes, o calor extremo exige mudanças drásticas de rota ou o abandono do trabalho em horários de pico solar, impactando a renda familiar. Para pessoas com deficiência, a logística para um simples banho frio — a estratégia mais básica de resfriamento — pode ser um obstáculo intransponível. Mulheres trans e outras populações marginalizadas enfrentam ainda a barreira do preconceito, evitando espaços públicos com sombra ou banheiros potáveis por medo de assédio, o que as coloca em um isolamento térmico perigoso e sem vias de escape seguras.
Diante desse cenário, especialistas defendem o conceito de "justiça térmica". Isso implica em afastar a ideia de que o resfriamento é um luxo de consumo e passar a tratá-lo como um direito fundamental. As soluções discutidas passam pela reforma de códigos de obras para garantir habitações mais frescas, a implementação de bebedouros públicos, o plantio massivo de árvores em subúrbios e a recuperação de conhecimentos ancestrais de arquitetura bioclimática. O próximo passo para a mitigação dessa crise reside no planejamento governamental que envolva as comunidades afetadas no desenho das soluções, garantindo que o direito ao frescor não seja determinado pelo CEP ou pelo saldo bancário dos indivíduos.





