Pai é denunciado por tortura e morte de bebê motivada por choro de fome no ES
Criança de 1 ano e 11 meses morreu após ser arremessada contra cabeceira de cama; MPES aponta tortura e motivação fútil.

O Ministério Público do Espírito Santo denunciou Admilson de Jesus Agapito por torturar e matar a filha de 1 ano em Aracruz. O crime teria sido motivado pelo choro de fome da criança. A bebê sofreu lesão hepática após ser arremessada contra uma cama; a defesa nega as acusações.
O Ministério Público do Espírito Santo (MPES) formalizou uma grave denúncia contra Admilson de Jesus Agapito, acusado de torturar e assassinar a própria filha, Eloara de Jesus Izidorio, de apenas um ano e 11 meses. O crime, que ocorreu no município de Aracruz, no Norte do estado, chocou a opinião pública pela brutalidade dos detalhes revelados na peça acusatória. Segundo o promotor Danilo Raposo Lirio, da 1ª Promotoria de Justiça Criminal de Aracruz, a pequena Eloara foi vítima de agressões fatais motivadas por um motivo fútil: o choro da criança, que manifestava fome. O documento aponta que o pai teria agredido a menina com pauladas e a arremessado contra a cabeceira de madeira de uma cama, resultando em ferimentos internos irreversíveis que levaram ao seu óbito dias depois.
Os antecedentes de violência no ambiente doméstico da família já haviam sido registrados anteriormente. As investigações indicam que o clima de terror na residência se intensificou no início de abril. No dia 3, enquanto Admilson consumia bebidas alcoólicas, a criança aproximou-se pedindo alimento. A reação do pai foi de extrema violência física, deixando hematomas visíveis nos olhos e nas costas da bebê. O ciclo de agressões continuou na manhã seguinte, quando Eloara novamente chorou por fome ao acordar. Foi nesse momento que o acusado teria segurado a filha pelos cabelos e desferido o impacto contra o móvel. A negligência posterior agravou o quadro, uma vez que a menina permaneceu desacordada por cerca de dez horas antes de qualquer assistência ser solicitada pela família.
O quadro clínico apresentado por Eloara ao chegar à Unidade de Pronto Atendimento (UPA) de Jacupemba era desesperador. Relatórios médicos indicam que ela apresentava vômito com sangue, além de lesões externas em diferentes estágios de cicatrização, o que sugere um histórico prolongado de maus-tratos. O laudo necroscópico do Serviço Médico Legal (SML) confirmou que a causa direta da morte foi uma lesão hepática extensa, provocando um sangramento intra-abdominal severo. Os peritos destacaram que a magnitude do trauma era compatível com atos de tortura e espancamentos severos, rechaçando qualquer possibilidade de acidente doméstico comum. A equipe médica tentou manobras de reanimação por trinta minutos, mas a criança não resistiu à gravidade dos ferimentos.
Diferente do pai, a mãe da menina não foi denunciada pelo Ministério Público. A decisão fundamentou-se em evidências de que ela também era vítima do agressor e que tentou, em ocasiões anteriores, buscar auxílio das autoridades. Registros mostram que, em dezembro do ano passado, a mulher — que estava grávida na época — acionou a Polícia Militar para denunciar os abusos que sofria junto com a filha. O MP interpretou que a genitora vivia sob um contexto de coação e vulnerabilidade, não possuindo condições reais de impedir a ação criminosa do denunciado. No processo, foram anexadas mensagens da avó de Eloara, residente na Bahia, que já demonstrava ciência e preocupação com o comportamento violento de Admilson contra a neta.
Atualmente, a defesa de Admilson nega veementemente as acusações e sustenta uma versão divergente dos fatos. A advogada Flávia Falquetto Raposa alega ter realizado uma investigação independente, ouvindo testemunhas que indicariam a mãe como a verdadeira autora das agressões. No entanto, o MPES mantém o pedido de conversão da prisão temporária do réu em preventiva, argumentando que a liberdade do acusado representa um risco à ordem pública e à instrução processual. O caso agora segue para a fase de instrução judicial, onde o tribunal avaliará se Admilson irá a júri popular por feminicídio no contexto de violência doméstica, qualificado pelo uso de tortura e meio cruel que impediu a defesa da vítima.
Este trágico episódio levanta discussões profundas sobre a eficácia da rede de proteção à criança e à mulher no interior do Espírito Santo. O fato de a mãe ter buscado a polícia meses antes do crime fatal expõe falhas nos mecanismos de monitoramento e intervenção em famílias com histórico de violência. Para a sociedade brasileira, o caso de Eloara serve como um alerta doloroso sobre a importância da denúncia imediata e do acompanhamento rigoroso por parte do Conselho Tutelar e do Judiciário em situações de risco iminente. O desfecho do processo jurídico é aguardado com expectativa por organizações de direitos humanos, que clamam por justiça e por políticas públicas mais robustas para prevenir que novos episódios de infanticídio e tortura ocorram sob o pretexto de silenciar o choro de uma criança faminta.






