Luto na Medicina: Morre Angelita Habr-Gama, maior nome da coloproctologia no Brasil
Aos 92 anos, a cientista que revolucionou o tratamento de tumores colorretais falece em São Paulo após décadas de pioneirismo.

A medicina mundial perdeu Angelita Habr-Gama, cirurgiã brasileira pioneira e referência global no tratamento do câncer de reto. Aos 92 anos, ela deixa um legado de inovação científica que revolucionou a coloproctologia internacional.
O cenário da medicina global e brasileira despede-se de uma de suas figuras mais emblemáticas. Faleceu no último sábado, 30 de maio, em São Paulo, a renomada cirurgiã Angelita Habr-Gama, aos 92 anos de idade. Considerada uma das maiores especialistas do mundo em coloproctologia, Angelita estava internada desde o início de maio no Hospital Alemão Oswaldo Cruz, instituição onde construiu uma trajetória sólida e dedicada ao longo de mais de sessenta anos de carreira profissional. Sua partida representa não apenas a perda de uma médica habilidosa, mas o fechamento de um ciclo para a ciência nacional, dado o seu papel fundamental no desenvolvimento de técnicas inovadoras para o tratamento do câncer de reto.
A trajetória de Angelita Habr-Gama foi marcada por um pioneirismo que quebrou inúmeras barreiras de gênero em um ambiente historicamente dominado por homens. Ela foi a primeira mulher a conquistar o cargo de professora titular em uma especialidade cirúrgica na prestigiosa Faculdade de Medicina da Universidade de São Paulo (USP). Esse feito abriu portas para gerações de médicas brasileiras que encontraram nela uma inspiração de competência e resiliência acadêmica. Sua atuação não se limitou às salas de cirurgia; Angelita foi uma produtora incansável de conhecimento científico, publicando centenas de artigos que alteraram as diretrizes internacionais sobre como lidar com tumores colorretais, priorizando sempre a qualidade de vida dos pacientes.
Um dos maiores legados deixados pela cirurgiã foi a consolidação da estratégia conhecida mundialmente como "Watch and Wait" (Observar e Esperar). Antes de suas pesquisas ganharem tração, a cirurgia radical era quase sempre a única opção para pacientes com câncer de reto, muitas vezes resultando em colostomias permanentes. Angelita defendeu e provou que, em casos de resposta completa ao tratamento de quimioterapia e radioterapia, era possível monitorar o paciente rigorosamente sem a necessidade imediata de uma intervenção cirúrgica invasiva. Essa abordagem revolucionária permitiu que milhares de pacientes ao redor do globo evitassem procedimentos mutiladores, preservando funções fisiológicas essenciais e mantendo a dignidade no pós-tratamento.
O reconhecimento de sua genialidade extrapolou as fronteiras brasileiras, rendendo-lhe honrarias inéditas. Ela foi a primeira cidadã do Brasil a ser aceita como membro honorário da renomada American Surgical Association, uma entidade centenária que reúne a elite da cirurgia mundial. Além disso, Angelita acumulou prêmios da Sociedade Europeia de Cirurgia e diversas outras distinções acadêmicas na América Latina e na Ásia. No Brasil, sua influência foi consolidada também através da fundação da Associação Brasileira de Prevenção do Câncer de Intestino (Abrapreci), onde trabalhou incansavelmente para conscientizar a população sobre a importância do diagnóstico precoce e da realização de exames como a colonoscopia.
Para o leitor brasileiro, a história de Angelita Habr-Gama deve ser vista como um exemplo de como a ciência feita no país pode liderar debates globais. Mesmo com as dificuldades de investimento em pesquisa que muitas vezes assolam o setor público, ela manteve a USP e o Hospital Alemão Oswaldo Cruz no mapa das grandes inovações médicas. Seu falecimento gera uma onda de homenagens de sociedades médicas, ex-alunos e pacientes que tiveram suas vidas transformadas por suas mãos e por seus estudos. O velório e as cerimônias de despedida devem reunir as principais lideranças da saúde brasileira, em um último adeus a uma mulher que não apenas operou corpos, mas transformou os rumos da ciência médica contemporânea.
Olhando para o futuro, o desafio das novas gerações de coloproctologistas será manter vivo o rigor científico e o humanismo que Angelita sempre pregou. A continuidade de suas pesquisas continua sendo aplicada em protocolos hospitalares de ponta, e sua fundação deve seguir com as campanhas de prevenção que salvam milhares de vidas anualmente. Angelita Habr-Gama deixa um vácuo imenso, mas sua obra permanece registrada em cada paciente que hoje goza de saúde graças às suas descobertas e na estrutura acadêmica que ajudou a fortalecer na medicina da USP e no Hospital Oswaldo Cruz.






