Indígenas realizam bloqueio na BR-101 em protesto contra julgamento do Marco Temporal no STF
Manifestantes das etnias Wassu Cocal e Xucuru Kariri bloqueiam a BR-101 em Alagoas contra tese jurídica que limita demarcações de terras.

Indígenas das etnias Wassu Cocal e Xucuru Kariri bloqueiam trecho da BR-101 em Joaquim Gomes, Alagoas, em protesto contra o Marco Temporal julgado pelo STF.
Na manhã desta quarta-feira, um grupo de manifestantes pertencentes às etnias Wassu Cocal e Xucuru Kariri realizou uma interdição total em um ponto estratégico da rodovia federal BR-101, localizada no estado de Alagoas. O bloqueio ocorreu especificamente na altura do quilômetro 25, na região do município de Joaquim Gomes, situado na Zona da Mata alagoana. A motivação central do movimento é a demonstração de oposição ao julgamento da tese jurídica conhecida como "Marco Temporal", que está sendo analisada pelos ministros do Supremo Tribunal Federal (STF) em Brasília, com impacto direto na demarcação de terras em todo o território nacional.
A tese do Marco Temporal propõe uma interpretação específica da Constituição Federal de 1988. De acordo com esse entendimento, as comunidades indígenas só teriam direito à posse de terras que estivessem sob sua ocupação efetiva ou em disputa judicial comprovada até o dia 5 de outubro de 1988, data da promulgação da Carta Magna. Para as lideranças indígenas presentes no protesto em Alagoas, essa interpretação é considerada restritiva e ignora o histórico de expulsões e conflitos agrários que ocorreram antes desse período, colocando em risco a segurança jurídica e a sobrevivência cultural de diversas aldeias que ainda buscam o reconhecimento oficial de seus territórios ancestrais.
Além da crítica ao mérito da tese, os manifestantes expressaram descontentamento com o rito processual adotado pelo Supremo. O julgamento atual está ocorrendo em ambiente virtual, iniciado no último dia 7 com encerramento previsto para a próxima terça-feira, dia 18. Segundo os representantes das etnias Wassu Cocal e Xucuru Kariri, a modalidade virtual limita a capacidade de mobilização presencial dos povos tradicionais na capital federal, dificultando o acompanhamento direto dos votos e a pressão democrática sobre os magistrados. Eles defendem que um tema de tamanha relevância para os direitos humanos e sociais deveria ser discutido em plenário físico, garantindo maior transparência e participação das partes interessadas.
O bloqueio da BR-101 gerou reflexos imediatos no tráfego da região, sendo uma das principais artérias de escoamento de produção e transporte de passageiros no Nordeste. A Polícia Rodoviária Federal (PRF) foi acionada para monitorar a situação e buscar a liberação da via, priorizando a segurança dos manifestantes e dos motoristas que ficaram retidos na rodovia. O cenário em Alagoas reflete uma tensão nacional, visto que o setor ruralista defende o Marco Temporal como uma ferramenta de segurança jurídica para produtores rurais, enquanto o movimento indígena o classifica como um retrocesso aos direitos garantidos constitucionalmente, gerando um impasse que o Poder Judiciário tenta agora resolver definitivamente.
Os próximos dias serão decisivos para o desfecho dessa controvérsia jurídica. Enquanto o STF colhe os votos dos ministros no sistema eletrônico, novas manifestações podem ocorrer em outros pontos do país, seguindo o exemplo do bloqueio em Joaquim Gomes. O resultado do julgamento servirá como um precedente vinculante, ou seja, deverá ser seguido por todas as instâncias da justiça brasileira em processos futuros que envolvam a demarcação de terras. A expectativa é que, até o término do prazo de votação na próxima semana, o tribunal apresente uma definição que equilibre os preceitos constitucionais e as realidades territoriais brasileiras, encerrando um dos debates mais longos e acirrados da história jurídica recente do Brasil.

