Farsa Revelada: Mulher que fingia ser criança no RS e SC já esteve em abrigo para menores
Mulher de 37 anos enganou autoridades e famílias por anos ao se passar por criança de 12 anos em diferentes cidades do Sul do país.

A investigação revelou que Amanda Maria Souza de Oliveira, de 37 anos, utilizava documentos falsos e relatos de abuso para ser acolhida como criança em abrigos e casas de família. Com passagens por várias cidades do RS, a farsa só foi descoberta em SC após mais de um ano de falsa adoção.
A Polícia Civil do Rio Grande do Sul e de Santa Catarina desvendou um caso de estelionato que chama a atenção pela complexidade e pelo tempo de duração da farsa. Amanda Maria Souza de Oliveira, uma mulher de 37 anos, foi detida após passar 14 meses vivendo como uma criança adotiva de 12 anos em uma residência no estado catarinense. No entanto, as investigações subsequentes revelaram que o histórico de golpes da suspeita é antigo e se estende por diversas cidades gaúchas, onde ela utilizava o sistema de assistência social e segurança pública para validar identidades falsas e ludibriar famílias e autoridades.
O modus operandi de Amanda era meticuloso e explorava a fragilidade das redes de proteção a menores. Segundo o delegado André Mocciaro, responsável por acompanhar o histórico da investigada, ela não apenas mentia sobre sua idade, mas criava narrativas traumáticas para garantir que fosse acolhida sem questionamentos. Em 2021, na capital Porto Alegre, a mulher conseguiu ser admitida em um abrigo destinado exclusivamente a adolescentes em situação de vulnerabilidade. Naquela ocasião, a farsa só foi interrompida após exames periciais constatarem que a estrutura óssea e as características físicas não correspondiam à infância, revelando sua idade adulta.
O histórico criminal da suspeita aponta registros em pelo menos cinco municípios do Rio Grande do Sul, incluindo passagens por Cachoeirinha e Pinto Bandeira. Em Cachoeirinha, também no ano de 2021, ela chegou a ser presa preventivamente após se apresentar como "Gabriele", uma menina de 11 anos. Naquela época, ela já havia conseguido ser acolhida por uma família local sob o pretexto de abandono. Após cumprir seis meses de detenção por uso de documento falso e estelionato, foi solta em junho de 2022, momento em que parece ter refinado suas táticas para buscar novas vítimas em outros estados, como Santa Catarina.
Para conferir veracidade às suas histórias, Amanda utilizava uma estratégia denominada pela polícia como "engodo institucional". Ela registrava boletins de ocorrência falsos alegando ter sido vítima de crimes graves, como exploração sexual e cárcere privado. Ao procurar unidades de saúde e conselhos tutelares com esses relatos, ela recebia atendimentos oficiais e encaminhamentos que serviam como "lastro" documental. De posse desses registros públicos, ela abordava famílias caridosas. A narrativa era frequentemente complementada por alegações de transtornos mentais, como autismo, o que ajudava a justificar eventuais comportamentos atípicos e reforçava o sentimento de empatia nos hospedeiros.
A relevância deste caso para o leitor brasileiro reside no alerta sobre as vulnerabilidades dos processos de acolhimento informal e a necessidade de verificação rigorosa de identidades, mesmo em contextos de ajuda humanitária. O uso de vulnerabilidades sociais e diagnósticos de saúde para cometer estelionato é uma faceta cruel do crime moderno, que prejudica a confiança pública em sistemas de adoção e apoio. A Polícia Civil agora trabalha para identificar se houve prejuízos financeiros diretos ou outras formas de vantagem ilícita obtidas por Amanda durante suas passagens pelas diversas casas onde residiu, enquanto orienta que qualquer cidadão que tenha acolhido a suspeita procure as autoridades para registrar depoimento.
Atualmente, as autoridades buscam consolidar todos os inquéritos para que a acusada responda pelo conjunto de crimes praticados em ambos os estados. O desdobramento deste caso pode levar a uma revisão nos protocolos de identificação de menores que buscam abrigos públicos, especialmente quando não possuem documentação civil original no momento do acolhimento inicial. O caso de Amanda Maria Souza de Oliveira serve como um exemplo extremo de como as redes de proteção podem ser manipuladas por indivíduos reincidentes que conhecem as brechas da burocracia estatal e a boa-fé da população.





