Famílias de Mato Grosso investem mais de R$ 1,3 mil para completar álbum da Copa
Com pacotes de figurinhas mais caros, colecionadores em Cuiabá organizam pontos de troca para reduzir custos e completar o álbum.

Em Cuiabá, colecionadores de álbuns da Copa do Mundo 2026 investem mais de R$ 1.300 para completar a coleção, driblando a alta nos preços dos pacotes com encontros para trocas de figurinhas repetidas e estratégias de negociação familiar.
A proximidade da Copa do Mundo de 2026 reacendeu uma tradição que atravessa gerações e movimenta a economia local em Mato Grosso: o colecionismo de álbuns de figurinhas. Em Cuiabá, o que começou como um passatempo infantil transformou-se em um investimento familiar significativo, com colecionadores relatando gastos que ultrapassam a marca de R$ 1.300 para preencher todos os espaços do livro oficial. O fenômeno reflete não apenas a paixão nacional pelo futebol, mas também o forte impacto da inflação sobre itens de lazer, visto que o preço dos envelopes sofreu um reajuste considerável em comparação à edição do torneio anterior, realizada no Catar em 2022.
O cenário econômico para os apaixonados por cromos está mais desafiador. Nesta edição, o álbum oficial demanda a colagem de 980 figurinhas. O custo unitário do pacote, que agora contém sete imagens e é comercializado por R$ 7, representa um salto expressivo em relação aos R$ 4 cobrados há dois anos. Na matemática pura, seriam necessários 140 envelopes para atingir o número total de cromos; entretanto, a dinâmica do mercado de colecionáveis, marcada pela alta incidência de repetidas, torna essa conta teoricamente impossível de ser fechada sem estratégias de intercâmbio. Esse aumento de custos tem levado famílias a se organizarem em praças públicas e pontos comerciais para realizar as tradicionais trocas, buscando minimizar o prejuízo financeiro e maximizar a diversão.
Entre os relatos colhidos em Cuiabá, destaca-se a história de Arthur Lopes, um estudante de 9 anos que contou com o apoio financeiro e emocional de seu pai, Lorem Lopes, de 55 anos, para finalizar sua coleção. A dupla desembolsou mais de R$ 1,3 mil no processo, valor que o pai considera bem investido pela alegria do filho e pelo fortalecimento do vínculo familiar. Arthur, que já possui uma conexão direta com o esporte por ser primo da jogadora da seleção feminina Tainá Maranhão, demonstrou um conhecimento técnico apurado sobre as seleções e já faz planos para o futuro: ele pretende guardar pacotes lacrados desta edição para abrir apenas em 2030, inspirado por colecionadores que encontram raridades décadas depois.
O hábito de colecionar também serve como ponte geracional e ferramenta de socialização. Guilherme Perreira, de 22 anos, investiu o mesmo montante de R$ 1,3 mil em apenas uma semana, motivado pelo desejo de se aproximar de seu irmão mais novo, de 12 anos. Da mesma forma, Mirele Cristina Furlan Rocha e seu filho Felipe mantêm a tradição desde a Copa de 2014. Mãe e filho admitem que evitam calcular o valor total gasto para não desanimarem diante das cifras elevadas. Para eles, o valor real está na interação social proporcionada pelos pontos de troca, que permitem conhecer pessoas de diferentes regiões do Brasil e compartilhar a adrenalina de encontrar uma figurinha considerada rara ou difícil.
Para alguns colecionadores mais experientes, a atividade ganha contornos de estratégia de mercado. Anderson Lewis, de 53 anos, tornou-se um especialista em gerenciar sua coleção de forma sustentável. Ele utiliza a técnica de trocar cromos especiais ou raros por grandes quantidades de figurinhas comuns, chegando a receber 80 unidades em uma única negociação. Além disso, a venda de itens escassos ajuda a financiar a continuidade do hobby para sua esposa e filho. Esse ecossistema de trocas e vendas informais transforma as praças de Mato Grosso em verdadeiros centros de negociação, onde a paciência e a habilidade de barganha são tão fundamentais quanto o próprio amor pelo esporte, garantindo que o álbum seja completado antes do apito inicial nos gramados.
Diante dos altos custos, o futuro do colecionismo físico no Brasil enfrenta o desafio da viabilidade financeira para as classes populares. No entanto, o engajamento observado em Mato Grosso sugere que, enquanto houver a mística da Copa do Mundo, as famílias continuarão priorizando o gasto para manter viva a tradição. O esforço logístico e financeiro relatado pelos cuiabanos demonstra que o álbum de figurinhas deixou de ser um simples produto de banca para se tornar um registro histórico e afetivo, capaz de unir desconhecidos em torno de um objetivo comum: a celebração do maior evento esportivo do planeta.





